Por que estamos tão cansados?

Da psicóloga e escritora Manuela Pérgola
É fim de ano, já temos enfeites de natal nos entupindo as artérias, perus sendo vendidos no mercado, o vasilhame da Coca-Cola cada vez mais gordo, expectativa para o amigo secreto da firma. Nos restaurantes, pontos de ônibus e farmácias escutamos a mesma frase "Nossa, esse ano voou, hein?" (eu mesma me pego dizendo isso a todo instante), mas a pergunta que não quer calar é: por que estamos tão cansados?
Todo mundo anda reclamando que não aguenta mais, que não vê a hora de entrar em férias, que sente muito sono de manhã, que está sem dinheiro (de novo) para os presentes. O que nos exaure as energias é mesmo o tempo que anda passando depressa demais, as obrigações que só aumentam e o lazer que só diminui ou há algo mais a notar? O que estamos perdendo, afinal?
Acho que toda essa canseira brota de uma desatenção aos detalhes. Estamos perdendo tempo demais com coisas grandes e deixando de reparar nas miudezas. Nos detalhes das causas da nossa própria insatisfação. Tem muito 3G, muito wi-fi, muita lama, muita guerra, muito ódio, muita política ruim, muito coração partido, muito trabalho, muito tudo. A vida é uma vaca megalomaníaca que nos sufoca com suas tetas imensas.
No fim das contas, volto ao mesmo: é preciso olhar pro próprio umbigo. É preciso se encarar no espelho, enxergar os cabelos brancos, as rugas em volta da testa sisuda, o peito sempre sufocado, os ombros, que parecem carregar caminhões de carga.
O problema está em ter deixado algum tempo passar fazendo sempre a mesma coisa sem se questionar e de repente culpar o tempo - ou a falta dele - pelas nossas próprias insatisfações.
Eu quero sair de dentro desse abismo que chamo de tempo, quero me alcançar, porque sei que em algum momento - ou em vários pequenos momentos - me deixei ali, na beira da estrada, esperando, enquanto eu corria atrás de alguma coisa que nem sequer descobri o que é. Pra isso talvez seja preciso parar um pouco. Planejar algo que alimente a alma. Traçar metas, se lembrar de sonhos esquecidos, fazer a famosa lista de resoluções para o novo ano.
Que bom que a vida foi dividida nesses ciclos de 12 meses que chamamos "ano". Que bom que o ano está no fim. Passou voando. Que depois das férias essa correria continue, mas que não nos escapem os sentidos mais singulares, que fazem essa correria toda valer a pena. Que o tempo continue voando, mas que não leve a nossa leveza de sentir a brisa que nos toca o rosto.

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