Como 10 mil crianças imigrantes 'sumiram' sem deixar rastro na Europa

Crianças rumam a centro para refugiados próximo a Gevgelija, na Macedônia, em novembro
Mais de 10 mil crianças imigrantes podem ter desaparecido depois de chegar na Europa apenas nos últimos dois anos, segundo a unidade de inteligência da polícia da União Europeia.
A Europol disse que as milhares de crianças desapareceram depois de serem registradas por autoridades.
A polícia do bloco europeu ainda alertou que crianças e jovens podem estar sendo explorados sexualmente e usados em trabalho escravo por gangues de criminosos.
Esta foi a primeira vez que a Europol forneceu uma estimativa de quantas crianças imigrantes podem estar desaparecidas em todo o bloco europeu.
"Não é exagero afirmar que estamos analisando (o número de) mais de 10 mil crianças", afirmou o chefe de gabinete da Europol, Brian Donald, ao jornal britânico The Observer.
"Nem todas elas serão exploradas de forma criminosa; algumas poderão ter ido viver com outros membros da família. Nós simplesmente não sabemos onde elas estão, o que estão fazendo ou quem está com elas."
E, de acordo com a organização de caridade britânica Save de Children, cerca de 26 mil crianças imigrantes chegaram à Europa no ano passado sem família. 
 
Sem rastrosEm maio de 2015 as autoridades da Itália afirmaram que quase 5 mil crianças tinham desaparecido de centros de recepção de refugiados desde o ano anterior.
Em outubro, as autoridades de Trelleborg, no sul da Suécia, afirmaram que cerca de mil crianças e jovens adultos, todos refugiados sem acompanhantes que chegaram na cidade no mês anterior, tinham desaparecido.
Confirmando a estimativa geral de menores desaparecidos, um porta-voz da Europol disse que uma grande proporção de crianças também pode ter desaparecido depois de desembarcar na Grécia. O país foi o primeiro ponto de entrada para mais de 1 milhão de imigrantes que chegaram à Europa de barco em 2015 e as autoridades locais foram criticadas por não conseguir registrar e checar as novas chegadas.
De acordo com a Europol, grupos criminosos envolvidos com tráfico de pessoas na Europa agora têm os imigrantes como alvo. Há o temor de que crianças desacompanhadas e jovens que chegam à Europa possam estar sendo explorados sexualmente, usados como escravos e em outras atividades ilegais.
Um porta-voz da Organização Internacional para Imigração, Leonard Doyle, disse à BBC que o número de 10 mil crianças desaparecidas é "chocante, mas não é surpreendente".
Doyle afirmou que era "esperado" que muitas destas crianças acabassem sendo exploradas.
"Vamos esperar agora que a União Europeia destine recursos para encontrar estas crianças, ajudando-as e reunindo estas crianças com suas famílias", disse.

Afogamentos
O anúncio da Europol veio em mais um momento de grande preocupação sobre a segurança da travessia de imigrantes rumo à Europa. No sábado, pelo menos 39 deles, incluindo várias crianças, se afogaram durante a travessia do mar Egeu, entre a Turquia e a Grécia.
Na sexta-feira, a Organização Internacional para Imigração informou que 244 imigrantes se afogaram no mar Mediterrâneo apenas neste ano, em meio a 55.568 chegadas.
Além dos riscos da travessia, há também problemas nos centros de recepção de imigrantes.
A editora da BBC para a Europa Katya Adler fez uma reportagem no ano passado expondo o quanto estas crianças imigrantes ficam vulneráveis quando são recebidas na Itália.
Fabio Sorgoni, da ONG italiana On The Road, disse a ela que o intervalo de tempo para providenciar um abrigo seguro aos menores que chegam desacompanhados é muito curto.
A lei permite que esses jovens possam sair dos centros de recepção durante o dia, quando se transformam em alvos fáceis para o crime organizado ou criminosos individuais que querem explorar estas crianças e jovens.
Poucos centros da Itália têm um número suficiente de tradutores que falam o idioma das crianças. E também não têm funcionários com experiência em identificar as vítimas exploração sexual.
Milhares de crianças fugiram de centros de recepção e desapareceram nas ruas da Itália. Sem ninguém para assumir a responsabilidade de cuidar destas crianças elas fazem sozinhas o que for necessário para sobreviver.

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