'Fui estuprada': Buscas no Google mostram uso da internet por vítimas em Estados brasileiros

Levantamento do Google revela também buscas sobre estupro perpetrado por familiares e parceiros (Camilla CostaDa BBC Brasil em São Paulo)
Roraima é o Estado brasileiro onde mais pessoas buscaram online pela expressão "Fui estuprada" entre abril de 2004 e abril de 2016. O Amazonas, no entanto, é o campeão de buscas pela expressão "fui abusada". O Piauí, pela expressão "fui molestada" e Sergipe, pela expressão "fui assediada".
Um levantamento feito pelo Google para a BBC Brasil mostra o quanto pessoas em cada Estado brasileiro buscaram por expressões que indicam violência contra a mulher, desde o momento em que a empresa começou a compilar dados de busca.
Os resultados não necessariamente significam que todas as pessoas que buscaram por estas expressões são vítimas - algumas podem, por exemplo, ter curiosidade por relatos de violência sexual, segundo Carlos Affonso, diretor do Instituto Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS-Rio).
"Podem também ser pessoas estudando o tema, buscando relatos ou tentando entender quais são os sites que mais aparecem. Mas (o resultado) pode nos dar uma luz sobre os casos de estupro que as estatísticas não estão contabilizando", disse à BBC Brasil.
De qualquer modo, segundo Affonso, o levantamento traz um retrato surpreendente de como a internet é usada para buscar orientação e ajuda, em meio à comoção causada pelo estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro.
"A tenologia tem sido vista como vilã por permitir compartilhar aquele vídeo e ampliar o crime, mas foi a mesma tecnologia que permitiu ter ciência de que o crime aconteceu e identificar autores. E hoje ela também potencializa meios de assistência e orientação à vítima."

'Fui estuprada pelo meu pai'

O Google não fornece números absolutos de buscas, mas a BBC Brasil obteve um ranking dos Estados onde determinadas expressões foram mais procuradas nos últimos 11 anos. Para chegar até ele, o número de buscas é dividido pela população local. E o Estado com o índice proporcional mais alto é tomado como base para calcular a posição dos demais.
Os cinco estados onde mais se buscou por "fui estuprada" são:
  • Roraima
  • Acre
  • Amazonas
  • Rio de Janeiro
  • Paraíba
No caso de "fui molestada", são:
  • Piauí
  • Tocantins
  • Amazonas
  • Sergipe
  • Maranhão
Aqueles onde a frase "fui abusada" apareceu mais vezes são:
  • Amazonas
  • Paraíba
  • Distrito Federal
  • São Paulo
  • Pará
De acordo com um levantamento feito pelo Ipea em 2011, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos e conhecidos da vítima - algo que também se revela nas buscas feitas no Google.
  • Tocantins foi o campeão de buscas por "fui estuprada pelo meu pai"
  • Alagoas teve mais buscas de "fui estuprada pelo meu padrasto"
  • Mato Grosso do Sul foi campeão em "fui estuprada pelo meu namorado"
  • Mato Grosso registrou o maior número de "fui estuprada pelo meu tio"
  • Amazonas foi o campeão em "fui estuprada pelo meu primo"
  • Paraíba teve o maior índice de buscas de "fui estuprada pelo meu amigo"
  • E o Pará, de "fui estuprada pelo meu avô".
Manifestação contra estupro em BrasíliaImage copyrightREUTERS
Image captionBuscas podem indicar necessidade de mais políticas públicas para mulheres do Norte e do Nordeste, diz psicanalista Juliana Cunha

Vulneráveis

Segundo os dados mais recentes do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, referentes a 2014, Roraima é o Estado com a maior taxa de estupros do país, levando em conta os boletins de ocorrência: 55,5 casos a cada 100 mil habitantes.
Em seguida, aparecem Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso e Alagoas.
Roraima também aparece em primeiro lugar em taxas de tentativa de estupro, seguida por Acre, Rio Grande do Sul, Amazonas e Alagoas.
Os dados mostram que os casos estão em todas as regiões do país, mas para a psicanalista Juliana Cunha, diretora psicossocial da ONG Safernet, chama a atenção que Estados da região Norte apareçam com destaque nas buscas do Google.
"Mesmo proporcionalmente, é interessante que o Norte apareça no topo destas pesquisas. Como o acesso à internet no Sudeste é muito grande, mesmo diluído na população, deveria haver mais buscas dessa região", diz à BBC Brasil.
"Em todas as pesquisas do tipo, notamos que São Paulo e Rio aparecem mais. Os acessos do helpline (telefone para pedidos de ajuda) da Safernet são mais de São Paulo e Rio. Em número de casos de vítimas que tiveram imagens de nudez compartilhadas sem consentimento, por exemplo, São Paulo está sempre em primeiro lugar", afirma.
"O dado do Google é importante para pensarmos em políticas públicas para Norte e Nordeste, porque essa é possivelmente uma população de mulheres mais vulnerável."

Internet x polícia

Para Cunha, as buscas mostram o crescimento da importância da internet como espaço de acolhimento às vítimas.
"O fato de a mulher ter sofrido uma situação de violência não necessariamente implica que ela perceba essa situação como violenta. Muitas vezes é um outro que vem de fora que diz que isso é sério, grave, não é sua culpa. A internet está sendo esse 'outro'", diz.
"Buscar na internet é uma forma de dar significado ao que aconteceu. É um espaço de tirar essa dúvida, de saber se está errada, de ouvir outros relatos e saber se o que viveu é um caso para denúncia."
O medo de serem estigmatizadas faz com que boa parte das mulheres prefira as redes sociais como veículo de denúncia do que a própria polícia, de acordo com a psicóloga Arielle Scarpati, doutoranda em psicologia forense, que investiga o papel da cultura na violência sexual.
Pesquisadores do Ipea estimam que apenas cerca de 10% dos casos de violência sexual cheguem ao conhecimento da polícia.
"Nos espaços (online), essas meninas têm oportunidade de saber quais são os seus direitos e serem acolhidas. Coisa que muitas vezes não acontece se eras forem na delegacia, por exemplo", diz à BBC Brasil.
"Aliás, esse é um relato muito recorrente entre as vítimas. Muitas dizem: eu conversei com alguém pela internet, postei em um grupo, busquei ajuda online. Mas quando você pergunta se elas têm interesse em denunciar, muitas dizem: 'não, eu não vou me submeter a isso. Não vou para a polícia'."

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