Jovens vencem dificuldades e se tornam médicos

Contrariando a sina de suas famílias, quatro pernambucanos do interior se formam em medicina na próxima 4ª feira
Jonas cortou cana entre 7 e 15 anos de idade. Agora é médico.
Foto: Alexandre Gondim / JC Imagem Margarida Azevedo
“Você está doido? Medicina é coisa para filho de rico.” Essa foi a resposta que Márcio Nascimento, 29 anos, ouviu do pai, um porteiro da cidade de Floresta, no Sertão de Pernambuco, quando ele disse que queria prestar vestibular para medicina, 12 anos atrás. Márcio não se conformou. Encarou o desafio de viver longe da família, com pouco dinheiro e decidiu mudar seu destino. Com histórias parecidas – egressos de escola pública, de origem humilde, vindos do interior e moradores da Casa do Estudante de Pernambuco (CEP) – Jonas Lopes, 30; Paulo Cézar Alencar, 30; e Josimar Torres, 29, fizeram o mesmo. Na próxima quarta-feira (29) os quatro jovens colam grau no Teatro Guararapes na 95ª turma de medicina da Universidade de Pernambuco (UPE), depois de muito suor, lágrimas, fome e, sobretudo, vontade de construir um futuro diferente.Embora a colação seja daqui a três dias, oficialmente os quatro já são médicos. Tiraram o registro no Conselho Regional de Medicina (Cremepe) semana passada. Não perderam tempo e arrumaram logo plantões em unidades de saúde do Grande Recife e interior. “O coração bateu acelerado. Peguei meu CRM de manhã e no fim da tarde estava na UPA de Nova Descoberta (Zona Norte do Recife). Deu um frio na barriga. No caminho fui refletindo, pensando: será que eu consigo? Graças a Deus deu tudo certo, encontrei amigos com quem convivi na faculdade e foi tudo bem”, relembra Márcio, que se despede da CEP após 11 anos morando lá. “Não dormi direito, estava nervoso para pegar o CRM. Fiquei um tempão olhando para a carteira de médico”, relata Jonas.Entre os 7 e 15 anos, Jonas trabalhou ao lado da mãe, cortando e limpando cana-de-açúcar, nos engenhos da cidade de Joaquim Nabuco, na Zona da Mata pernambucana, onde reside sua família. Desse tempo, lembra do sol forte e da dor nas costas. Acordava cedo, ainda de madrugada, e seguia para os canaviais. Café e farofa de fubá misturada com charque eram o combustível para a lida. “Foi um tempo difícil. Meu pai é pedreiro, somos sete filhos. Ele viajava para outros Estados para arrumar trabalho, enquanto minha mãe cuidava da gente. Se não trabalhássemos, não havia o que comer”, diz Jonas, que também vendeu picolé, carregou frete, vendeu frutas e deu aula particular.
Apesar da dificuldade financeira, Jonas e os irmãos eram estimulados a frequentar a escola. Em 2005, concluiu o ensino médio na Escola Estadual Coronel Alfredo Brandão, em Joaquim Nabuco. No ano seguinte veio para o Recife morar na casa da irmã mais velha, em Piedade, Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, com o objetivo de preparar-se para o vestibular. Não viu o nome no listão por três anos seguidos.
Somente em 2009, quando teve bolsa de estudos num cursinho particular e vaga para morar na Casa do Estudante, seu esforço foi recompensado. Até recebido pelo então governador Eduardo Campos, no Palácio do Campo das Princesas, ele foi. A inclusão da cota para candidatos egressos de escola pública, política inclusiva adotada pela UPE um ano antes, em 2008, contribuiu para o acesso de Jonas, Márcio, Paulo Cézar e Josimar ao ensino superior. Atualmente, a universidade tem cerca de 20 mil alunos na graduação, dos quais 4.628 são cotistas.
O caminho de Márcio também não foi fácil até conseguir o diploma de médico. Em 2005, nos primeiros meses como morador da CEP ele era penetra, como os xepeiros chamam quem não é oficialmente da casa. “Eu dormia num colchão no chão, cozinhava no quarto, enquanto os colegas tinham direito à refeição na casa. Uma vez fiz prova do vestibular com fome, sem ter tomado café da manhã”, relata Márcio, aprovado na quinta tentativa, em 2009.
Sobrevivia com pouco mais de R$ 100 que a mãe, costureira, mandava todo mês. “A família foi fundamental. Durante esse período minha namorada, hoje esposa, ficou grávida. Ía voltar para o Sertão e assumir meu filho. Meu sogro me tranquilizou. Disse que eu poderia continuar estudando porque ele cuidaria do neto até que o pai dele fosse doutor. E assim fez”, diz Márcio, pai de Bruno, 8 anos. Em setembro nasce Lara.
Paulo Cézar, sertanejo de Parnamirim, é o segundo filho de um casal de caminhoneiro e dona de casa. “Para quem chega do interior, o Recife é uma cidade imensa, a gente se sente uma formiga no meio da multidão. Passei em medicina após cinco tentativas. O sentimento agora é de dever cumprido”, comenta Paulo, que já voltou para sua cidade. Planeja trabalhar por lá por um ou dois anos antes de começar a residência.
Josimar é o penúltimo filho de dois agricultores de Carnaubeira da Penha, também no Sertão. Antes dele, três irmãos passaram pela CEP e se formaram em enfermagem e farmácia. Ainda tem um cursando odontologia. Ele pretende morar em Mato Grosso, pois a noiva vai cursar medicina lá.
O recado (e as histórias dos quatro rapazes) é o mesmo: invista nos seus sonhos. “Não sou melhor nem pior que ninguém. Apenas corri atrás do que sonhava”, destaca Jonas. “A maior lição que aprendi é perseverar. Dificuldade surge para todo mundo. O que muda é se você vai enfrentá-la ou aceitar o problema. Eu decidi que não voltaria para minha cidade igual a todo mundo. Consegui”, observa Márcio.

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