Yane Marques e o sonho da medalha olímpica que virou realidade

 
Superesportes: Complexo Deodoro, Rio de Janeiro, 2007. Ali, há quase nove anos, no dia 23 de julho, a pernambucana Yane Marques conquistava a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos. Garantia, assim, a realização do sonho olímpico Aquela vitória garantia a sua presença nos Jogos de Pequim, disputados no ano seguinte. Participação estendida a Londres, quatro anos mais tarde, com a realização de mais um sonho, da medalha olímpica. Ciclo que se aproxima de um desfecho histórico, em casa, exatamente onde tudo começou. Yane Marques, sertaneja filha ilustre de Afogados da Ingazeira, a primeira pernambucana a conquistar uma medalha olímpica numa modalidade individual, é a personagem da série Relíquias Olímpicas, que conta a história das pernambucanas e pernambucanos que participaram de Jogos Olímpicos.
O passaporte olímpico veio com a medalha de ouro. Até então, aquela era a maior conquista da pernambucana Yane Marques. Nos Jogos Pan-Americanos de 2007, disputado no Rio de Janeiro, a sertaneja, aos 23 anos, vencia a disputa do pentatlo moderno. A primeira colocação lhe garantiu presença na Olimpíada de Pequim, no ano seguinte. O sonho olímpico se tornava realidade. Mas havia muito mais além desse sonho. 
Não no primeiro capítulo. Neste, a honra maior foi a participação. Também por conta das barreiras encontradas por Yane. Logo na chegada a Pequim, a pernambucana se deparou com o primeiro obstáculo. A sua mala chegou totalmente danificada. Pior. Os equipamentos que seriam usados na equitação e tiro estavam quebrados. E não havia tempo hábil para mandar buscar no Brasil as peças para reposição. “Fiquei muito triste. Passei quatro horas em negociação para tentar resolver o problema. Estava praticamente chegando o dia de competir e eu sem meu material. Por fim, tudo foi resolvido por lá mesmo. Mas usei equipamentos aos quais não estava acostumada”, conta Yane.
Tirando esse contratempo, a pernambucana recorda da boa energia quando pisou na Vila Olímpica. “A energia é única. Só estando lá para sentir. E Pequim estava pronta para receber a todos. É tanto que meu problema inicial, com a bagagem, foi solucionado”, acrescenta.
Até a prova do hipismo, tudo corria surpreendentemente bem para a pernambucana. Eis que surge em seu caminho um cavalo arredio (o animal é escolhido por sorteio), numa pista pesada. Por mais que fizesse esforço, o animal não obedecia aos comandos de Yane. Com isso, foi inevitável cometer as faltas. “Até então, eu vinha bem na disputa. Para a primeira participação em uma Olimpíada, eu estava brigando bem. Por isso, considero minha posição final aceitável. A 18ª posição foi inédita para o meu país. Saí com a sensação de ter feito o melhor, mas ainda pairava na minha cabeça que podia ter feito algo mais. Basta o cavalo ter feito a parte dele”, recorda a pentatleta.
No fim, Yane terminou a sua participação na 18ª colocação. Com a energia renovada para ir em busca de sonhos maiores.
Londres, o segundo capítulo
A participação em Londres foi garantida de forma semelhante à anterior. No Pan-Americano de Guadalajara, México, Yane Marques terminou com a prata. O fato de ser a melhor sul-americana na prova - ficou atrás apenas da norte-americana Margaux Isaksen -, rendeu-lhe a vaga em Londres. A sua segunda participação nos Jogos. A evolução e a maturidade adquirida nos últimos anos lhe permitiam sonhar com algo além da simples participação.
Para isso, Yane não desacelerou. A sua preparação foi até o limite. Na caminhada até o desembarque final em Londres, fez algumas paradas. Uma delas foi na França. Para afinar, sobretudo, o jogo da esgrima. Participou do Open Francês de pentatlo moderno. Na competição, deixou para trás Amelie Cazé, tricampeã mundial na modalidade, e subiu no topo do pódio.
Roma, na Itália, foi o último endereço da pernambucana antes da chegada na capital inglesa. E ao colocar os pés no aeroporto de Heathrow ficou retida por mais de duas horas. Tudo por causa da pistola - a laser - que trazia na bagagem. O foco não permitiria prejuízos por qualquer contratempo. “Mandamos um monte de papéis para eles autorizarem a entrada da pistola. Na hora de entrar no país deles, foi difícil explicar que era meu equipamento de competição”, relembra. No final, deu tudo certo.
Quando chegou na Vila Olímpica, a pentatleta dividiu, por uns dias, o apartamento com a taekista Natália Falavigna - mesma companheira de quarto de Pequim. E manteve o foco absoluto na disputa. Evitou badalações. Pouco saía. Somente quando a mãe, dona Gorette, chegou a Londres, foi que ela abriu uma exceção e foi encontrá-la em um shopping que ficava ao lado do alojamento. Encontro rápido. Matou a saudade e retornou para a concentração.
No dia da prova, ela recorda que acordou muito bem. Alimentou-se tranquilamente (pão, geleia e ovos) e seguiu para o parque olímpico, que abrigou os jogos de esgrima. Antes de pisar na pista, de fone nos ouvidos, curtiu o som da banda Aviões do Forró. “Eu gosto muito de música. Sempre me ajuda a relaxar, tirar um pouco a tensão. Geralmente, fico ansiosa em dias de provas e em Londres foi um pouco diferente”, explica a atleta.
A saga prosseguiu até a prova final, o evento combinado. “Tinha feito uma temporada regular. Só queria reproduzir isso na prova. Não estava contando com o fator sorte. E consegui isso”, explica. Um filme ainda povoa o pensamento de Yane. Os momentos finais da corrida, para cruzar a linha de chegada em terceiro lugar. “Nos 400 metros finais, lembro que tinha uma ladeira bem íngreme. Logo atrás de mim vinham a norte-americana e a chinesa. Vinham forte. Pensei: elas têm até aquela subida para me passar. Senão, só se eu cair ou desmaiar e não completar a prova. Quando entrei no estádio, foi uma perna atrás da outra, uma perna atrás da outra. Até cruzar a linha de chegada.”
A medalha de bronze estava garantida. Aos 28 anos, o momento era de festejar, mas sem flertar com o próximo desafio. A volta ao local onde tudo começou já estava delineado no horizonte.
Rio, o terceiro capítulo
Complexo Deodoro, Rio de Janeiro, 2016. A realização do sonho dos sonhos materializou-se para Yane Marques com mais uma medalha de bronze. Na Alemanha, em 4 de julho de 2015, Yane Marques conquistou a terceira colocação no Campeonato Mundial de Pentatlo Moderno. Assegurava, desde já, a participação na sua terceira Olimpíada. Talvez a última. A mais especial de todas. Uma olimpíada disputada em casa. Onde tudo começou.
Aos 32 anos, Yane não define os Jogos do Rio como o fim do seu ciclo olímpico. O foco não é no futuro, mas, sim, no presente. Em seu território, a pernambucana quer honrar a sua carreira. Numa modalidade que depende de fatores alheios ao desempenho individual - como ter sorte na definição do cavalo -, isso não passa por uma medalha, necessariamente. Passa por chegar a ir além dos seus limites. “Uma perna atrás da outra.”
Quando cruzar a linha de chegada, Yane terá a sua vitória. Com medalha ou sem medalha, terá concluído mais um ciclo de abdicação, de entrega, dedicação absoluta. O terceiro, talvez o último. O ponto final de uma carreira vitoriosa, de uma carreira exemplar para qualquer atleta, de qualquer modalidade.

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