STF antecipou a campanha eleitoral em três anos

Josias de Souza/Uol
Ao libertar Lula, o Supremo Tribunal Federal ateou uma retórica inflamada na conjuntura brasileira. Em menos de 24 horas, o ex-presidiário petista promoveu dois comícios —um na porta da cadeia, outro defronte do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo (Veja a íntegra no rodapé). Em ambos, o ficha suja discursou como candidato a um terceiro mandato presidencial. "Eu estou de volta", disse Lula neste sábado. No extremo oposto, Jair Bolsonaro mordeu gostosamente a isca da ultrapolarização: "Não vamos contemporizar com presidiário". Assim, com o beneplácito da Suprema Corte, foi deflagrada, com mais de três anos de antecedência, a sucessão de 2022.
Com ares de quem prepara uma plataforma eleitoral, Lula anunciou que pretende "falar ao país" dentro de 20 dias. Tomados como um esboço do que está por vir, os primeiros discursos soaram como uma declaração de guerra. Lula tratou o presidente da República como um miliciano, insinuando que está vinculado aos assassinos de Marielle Franco. Chamou Sergio Moro de "canalha". E grudou em Paulo Guedes a pecha de "demolidor de sonhos".
Foi como se Lula desejasse facilitar a resposta dos rivais. Declara-se injustiçado. Mas não hesita em acusar Bolsonaro sem provas. Xinga o ex-juiz da Lava Jato sem explicar os fatos que lhe renderam o título de corrupto de terceira instância. Ao encaixar todas as mazelas econômicas do país nos dez meses de gestão de Guedes, Lula pede ao brasileiro que faça como ele, fingindo-se de bobo para esquecer que Dilma Rousseff existiu.
As pesquisas indicam que o eleitorado brasileiro está rachado em três pedaços. Num extremo, um terço pró-Bolsonaro. Noutra extremidade, um terço simpático à radioatividade de Lula. No meio, um terço que reza por moderação enquanto se equipa para decidir a próxima sucessão presidencial.
Lula e Bolsonaro parecem subestimar a inteligência da plateia. Um, colecionador de ações criminais, já não retira coelhos da cartola, só gambás. Outro, dedicado à fabricação de crises, não se deu conta de que foi colocado ao volante para dar um rumo à economia, não para passar quatro anos xingando o retrovisor.