Dez anos de cadeia por descumprir regulamento sobre Covid-19 na Inglaterra

 
Coreia do Norte? Não, Inglaterra. A punição pesadíssima atingirá quem esconder que esteve em país da 'lista vermelha', incluindo o BrasilPor Vilma Gryzinski 10 fev 2021, 08h16
“Não vou me desculpar por estas medidas severas porque estamos lidando com uma das maiores ameaças à saúde pública que já enfrentamos como nação.”
Conhecido pelas gravatas cor de rosa e os olhos lacrimosos que exibiu nos piores momentos da pandemia, Matt Hanckok, o ministro da saúde britânico, falou como um tiranete qualquer desses que prendem e mandam soltar.
Prender é justamente o que o governo britânico pretende fazer, através de uma lei especial que prevê dez anos de cadeia para quem não revelar que esteve, até dez dias antes do desembarque em território do Reino Unido, em algum dos 33 países da “lista vermelha”, na maioria vizinhos do Brasil e da África do Sul, onde afloraram as temidas variantes do novo coronavírus.
Para comparar: penas de dez anos são dadas, habitualmente, a instigadores de atentados terroristas ou exploração sexual de menores.
Apenas cidadãos britânicos estão autorizados a desembarcar no país, mas sob restrições especiais.
Os procedentes dos 33 países da lista vermelha terão que fazer uma quarentena de dez dias em hotéis próximos do aeroporto de Heathrow; de Dover, onde é feita a conexão por balsa com a França, e da estação de trem do Eurostar.Fora o teste negativo a ser feito até 72 horas antes da viagem, os internados terão que se submeter a mais dois exames, no segundo e no oitavo dia da quarentena compulsória.
Os viajantes procedentes de outros países, fora da lista dos proibidões, também terão que fazer dois testes durante a quarentena em casa.
Quem falhar, pode pagar multa de mil libras (mais de oito mil reais) pelo primeiro teste furado, valor que dobra no caso do segundo. Furar a quarentena doméstica sairá mais caro ainda: 10 mil libras.
A ideia é justamente intimidar os cidadãos britânicos que moram no exterior ou estão de visita em outros países para que adiem a volta ao Reino Unido.
Os que têm motivos inadiáveis para retornar, vão enfrentar a provação – e pagar por ela.
O governo britânico demorou quase um mês para acertar o esquema de quarentena com os hotéis justamente porque opera numa democracia, mesmo sob a emergência da pandemia, e não num país como o Vietnã, que controlou o vírus colocando todos os viajantes vindos do exterior em acampamentos militares distantes das cidades.
Fechar fronteiras é um método discutível cientificamente, mas de grande apelo para a opinião pública. Nada menos que 87% apoiam a quarentena compulsória em hotéis, segundo uma pesquisa feita em janeiro.
Impressionantes 70% são a favor do controle por GPS dos que têm que fazer a quarentena em casa – uma hipótese ainda não cogitada que implicaria na obrigatoriedade do porte de celular, outra imposição que soaria absurda na era pré-coronavírus.
As reações negativas vieram dos conservadores de tendência libertária, geralmente horrorizados com o tamanho da intervenção do governo propiciada pela pandemia – e também a falta de proporção de uma sentença de dez anos por mentir sobre o país de procedência.
“Uma visita a Portugal é pior do que um grande número de delitos envolvendo armas de fogo ou delitos sexuais envolvendo menores para os quais a pena máxima é sete anos?”, escreveu Jonathan Sumption, historiador e ex-presidente da Suprema Corte.
Ele usou o exemplo de Portugal porque é um país muito frequentado nas férias por ingleses, além de ter 35 mil residentes britânicos. E Portugal está na lista por causa dos laços com o Brasil.
Com aeroportos vazios e turismo reduzido a zero, a indústria aérea leva mais um baque com o endurecimento das regras para viagens, sem prazo para caducar. A única esperança: a criação de um código QR que equivaleria a um passaporte de imunização para os vacinados.
Oito empresas ligadas ao projeto de inovação patrocinado pelo governo já receberam verbas para desenvolver o projeto do passaporte digital. O que parecia um instrumento perigoso, fadado a dividir a sociedade entre os com-vacina e os sem-vacina, começa a soar razoável. Principalmente num país onde a vacinação é a segunda mais avançada do mundo, depois de Israel.
O governo diz que não está planejando estabelecer um passaporte para vacinados, apenas explorando alternativas.
Sobre a reabertura das fronteiras, nem a mais remota conjectura. As variantes conhecidas – sem falar nas que ainda não foram identificadas – e os resultados frustrantes da vacina da AstraZeneca para combatê-la desenham um curto, ou até mesmo médio, prazo desanimador.
Nele, nem mesmo a vacinação em massa restaura alguma coisa parecida com a normalidade perdida, ficando cada vez mais parecida com o fim do começo, e não o oposto.