Três milhões de brasileiros esperam acesso a Bolsa Família e INSS enquanto pobreza avança

Três milhões de brasileiros estão à espera de benefícios sociais e previdenciários, em uma fila que o governo não consegue reduzir. De acordo com informações do jornal O Globo, deste total, 1,2 milhão de pessoas estão esperando o Bolsa Família.
Há também 1,8 milhão aguardando aposentadoria ou pensão do INSS - sendo 600 mil pessoas com deficiência ou idosos pobres em busca do Benefício de Prestação Continuada (BPC).
Estas dificuldades de acesso agravam a vulnerabilidade de muitas famílias a pouco mais de um mês do fim do auxílio emergencial para 39,3 milhões de pessoas. É o que conclui um estudo do pesquisador Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Dados levantados a partir deste trabalho apontam que a pobreza já atinge 27,7 milhões de brasileiros - o equivalente a 13% da população. Em 2017, segundo sua metodologia, eram 11,2%.
"Há três dias que não como. Quando consigo fazer um bico, compro biscoito. Estou na luta. Uso a internet da venda da esquina para me inscrever nas vagas. Para mim, o importante é trabalhar, pagar meu teto, ter o que comer. Já estou ficando desesperada", conta C.O., de 32 anos, desempregada e uma das pessoas beneficiadas pelo auxílio emergencial.
Ela era garçonete mas foi demitida no início da pandemia. Sem trabalho, teve de entregar o apartamento onde morava e deixar as duas filhas com o ex-marido. Após passar 18 dias morando na rua, atualmente vive de favor em uma casa alugada por três meses por um amigo na Zona Oeste do Rio. Só há uma cama no local.
Também ouvidos pela reportagem, e com cinco filhos de 2 a 15 anos, Janaína Trindade, de 31 anos, e o marido, Rodrigo de Lima, de 43, dependem da solidariedade de estranhos para viver em Almirante Tamandaré, na região metropolitana de Curitiba
Ela terá que voltar para a fila do Bolsa Família porque teve o benefício bloqueado no mês passado. Ele, por sua vez, que deixou de ser vigia quando sofreu um AVC, tenta, desde 2014, aposentadoria no INSS, mas também aguarda na fila.
"Já mandei as crianças para a casa da avó para terem o que comer. Houve dia em que a gente só teve abóbora e água. A fome dói. E ver os filhos com fome dói ainda mais", conta Janaína.
Projetos como o Auxílio Brasil - que o governo pretende colocar no lugar do Bolsa Família para aumentar o alcance e o valor dos repasses - não avançam no Congresso Federal em um cenário de crise política e institucional.
Segundo o jornal, de olho na campanha de reeleição, Bolsonaro tem aumentado a pressão sobre o ministro da Economia, Paulo Guedes, para viabilizar o Auxílio Brasil ou prorrogar o auxílio emergencial até o fim do ano. Contudo, esta não é uma solução simples.
Em agosto, o Bolsa Família foi pago a 14,6 milhões de famílias. Dados do Ministério da Cidadania apontam que havia outras 1.186.755 pessoas que atendiam aos critérios do programa no Cadastro Único, mas não foram incluídas por falta de recursos.
A proposta de Orçamento para 2022 prevê R$ 34,7 bilhões para 14,7 milhões de famílias. Assim, não haveria espaço para zerar a fila nem para aumentar o valor do benefício. Pelas regras fiscais atuais, não há espaço orçamentário para uma iniciativa com o Auxílio Brasil, que tem a pretensão de atender a 17 milhões de famílias.
Por fim, a fila do INSS tem causas estruturais, como falta de investimento em sistemas e em pessoal, deficiências que foram agravadas pelo fechamento de agências por causa da pandemia e uma greve de médicos peritos.
Dos 1.500 postos, 200 ainda não reabriram por falta de protocolos de segurança. O governo chegou a prometer zerar a fila do INSS com medidas provisórias para contratação de temporários e pagamento de bônus para servidores agilizarem a análise de processos. Mas as MPs não foram votadas no Congresso e perderam a validade.

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