
Desde o fim da ditadura no Brasil, os eleitores jovens sempre formaram uma base segura para candidatos e partidos de esquerda. Foi assim em todas as eleições presidenciais desde 1989 até 2022. No pleito em que Lula derrotou Jair Bolsonaro e conquistou seu atual e terceiro mandato, ele exibia o maior percentual de intenção de voto, de todas as faixas etárias, justamente entre os votantes com idades entre 16 e 24 anos. A matéria é da VEJA.
Em março daquele ano, o Datafolha indicava que 62% dos eleitores jovens declaravam voto no petista em um eventual enfrentamento com Jair Bolsonaro no segundo turno. Segundo as pesquisas recentes, esse cenário favorável mudou drasticamente na corrida ao Palácio do Planalto neste ano. No último levantamento do Datafolha, em março, o percentual, num hipotético confronto com Flávio Bolsonaro (PL), caiu para 43%.
Essa queda não foi por falta de tentativa do petista de agradar ao eleitorado jovem. O governo Lula tem se esforçado para emplacar leis e programas sociais que atendam a essa fatia da população. Em 2024, por exemplo, foi lançado o Programa Pé-de-Meia, que recompensa alunos de baixa renda na rede pública pela frequência e conclusão do ensino médio.
No mesmo ano, foi relançado o Projovem, voltado à qualificação profissional de quem tem 18 a 29 anos e não concluiu o ensino fundamental. Mais recentemente, as iniciativas voltadas a esse público têm engrossado: no final de março, o governo instituiu o Observatório Nacional das Juventudes, ligado à Secretaria-Geral da Presidência, comandada pelo ministro Guilherme Boulos (PSol), para estudar as demandas desse segmento da população, e Lula participou nesta semana de um evento em comemoração aos 21 anos do ProUni, programa de bolsas de estudo em faculdades privadas, criado no seu primeiro governo. Ele aproveitou para anunciar a ampliação da rede de cursinhos populares.
As medidas do governo não parecem capazes de sensibilizar o público-alvo. Uma pesquisa AtlasIntel divulgada no mês passado mostra que 73% dos eleitores com 16 a 24 anos desaprovam o governo Lula, muito longe da média da população geral, em que a rejeição é de 53%. Para Yuri Sanches, diretor político da AtlasIntel, os jovens não têm a memória dos mandatos anteriores do PT, quando programas sociais como o Bolsa Família eram novidade e a economia andava em ritmo bem mais forte, beneficiada pelo boom de commodities. “Esses jovens cresceram ouvindo sobre os governos petistas, e essa foi a primeira oportunidade de experimentar em primeira mão, só que o contexto é diferente, tanto em ambiente informacional quanto em questões estruturais”, diz Sanches. O resultado é a decepção.
Uma das questões que o governo do PT não conseguiu resolver é a falta de perspectiva de trabalho para os mais jovens: o país fechou 2025 com 11,4% de desemprego entre brasileiros de 18 a 24 anos de idade, mais que o dobro da taxa nacional, de 5,1%. A escassez de oportunidades alimenta a desilusão em relação ao tradicional modelo de contrato CLT. Sem espaço nos setores convencionais da economia, muitos dos novos integrantes da força de trabalho ingressam como autônomos em funções como entregadores e motoristas de aplicativos, que já superam 180.000 trabalhadores na faixa etária citada, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em março daquele ano, o Datafolha indicava que 62% dos eleitores jovens declaravam voto no petista em um eventual enfrentamento com Jair Bolsonaro no segundo turno. Segundo as pesquisas recentes, esse cenário favorável mudou drasticamente na corrida ao Palácio do Planalto neste ano. No último levantamento do Datafolha, em março, o percentual, num hipotético confronto com Flávio Bolsonaro (PL), caiu para 43%.
Essa queda não foi por falta de tentativa do petista de agradar ao eleitorado jovem. O governo Lula tem se esforçado para emplacar leis e programas sociais que atendam a essa fatia da população. Em 2024, por exemplo, foi lançado o Programa Pé-de-Meia, que recompensa alunos de baixa renda na rede pública pela frequência e conclusão do ensino médio.
No mesmo ano, foi relançado o Projovem, voltado à qualificação profissional de quem tem 18 a 29 anos e não concluiu o ensino fundamental. Mais recentemente, as iniciativas voltadas a esse público têm engrossado: no final de março, o governo instituiu o Observatório Nacional das Juventudes, ligado à Secretaria-Geral da Presidência, comandada pelo ministro Guilherme Boulos (PSol), para estudar as demandas desse segmento da população, e Lula participou nesta semana de um evento em comemoração aos 21 anos do ProUni, programa de bolsas de estudo em faculdades privadas, criado no seu primeiro governo. Ele aproveitou para anunciar a ampliação da rede de cursinhos populares.
As medidas do governo não parecem capazes de sensibilizar o público-alvo. Uma pesquisa AtlasIntel divulgada no mês passado mostra que 73% dos eleitores com 16 a 24 anos desaprovam o governo Lula, muito longe da média da população geral, em que a rejeição é de 53%. Para Yuri Sanches, diretor político da AtlasIntel, os jovens não têm a memória dos mandatos anteriores do PT, quando programas sociais como o Bolsa Família eram novidade e a economia andava em ritmo bem mais forte, beneficiada pelo boom de commodities. “Esses jovens cresceram ouvindo sobre os governos petistas, e essa foi a primeira oportunidade de experimentar em primeira mão, só que o contexto é diferente, tanto em ambiente informacional quanto em questões estruturais”, diz Sanches. O resultado é a decepção.
Uma das questões que o governo do PT não conseguiu resolver é a falta de perspectiva de trabalho para os mais jovens: o país fechou 2025 com 11,4% de desemprego entre brasileiros de 18 a 24 anos de idade, mais que o dobro da taxa nacional, de 5,1%. A escassez de oportunidades alimenta a desilusão em relação ao tradicional modelo de contrato CLT. Sem espaço nos setores convencionais da economia, muitos dos novos integrantes da força de trabalho ingressam como autônomos em funções como entregadores e motoristas de aplicativos, que já superam 180.000 trabalhadores na faixa etária citada, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Mais do que mera tábua de salvação, para muitos desses trabalhadores o negócio é uma oportunidade de prosperar de forma mais independente. O governo federal acordou tarde para a nova realidade. A regulamentação do trabalho por apps ficou a cargo de Guilherme Boulos, que, a seis meses das eleições, corre contra o relógio para ouvir as demandas dos “plataformizados”.
Lula também trouxe uma preocupação relativamente nova para o eleitor mais novo: a carga tributária. Tradicionalmente associada ao público mais velho, essa aflição entrou no radar dos jovens com o imposto de importação sobre compras internacionais de pequeno valor, popularizado como taxa das blusinhas, que entrou em vigor em 2024. “Essa taxa acabou consolidando a imagem de que esse governo só aumenta impostos, e impactou também os mais pobres, eleitorado clássico do Lula. Isso é particularmente impactante para os mais jovens, que têm um hábito maior de comprar on-line”, diz Sanches, da AtlasIntel. Não por acaso, a revisão da taxa é defendida por uma ala do governo como medida para recuperar popularidade.
A rejeição de Lula entre os jovens também é reflexo de um novo posicionamento ideológico. Uma pesquisa da AtlasIntel sobre as diferenças entre gerações, realizada em novembro passado, mostrou que a Z, dos nascidos entre 1997 e 2012, é mais alinhada à direita e à centro-direita do que a média da população. Isso se soma a um crescimento evangélico que é maior entre os jovens, como revelaram dados do Censo 2022 do IBGE: dos 10 aos 29 anos, o percentual dos que se declaram dessa religião é superior à média geral. Essa é uma fatia do eleitorado da qual Lula tem dificuldade de se aproximar. Uma das organizadoras do Encontro de Parlamentares Jovens do PT, cuja primeira edição aconteceu em março, a deputada estadual do Paraná Ana Júlia Ribeiro analisa a juventude como um território em disputa: “Existe uma parte que foi seduzida pelo discurso promovido pelo algoritmo das redes sociais, mas, ao mesmo tempo, tem uma parcela que é ainda mais progressista que as gerações anteriores, como nas discussões de gênero e de liberdades individuais”.
O algoritmo a que a deputada se refere é outra possível explicação para a crise de popularidade do governo, ligada ao desequilíbrio do debate na arena digital, oceano onde a oposição nada de braçada, enquanto o PT tenta recuperar terreno a todo custo. “A própria natureza do ambiente digital cria um campo mais favorável à revolta e indignação do que às discussões qualificadas sobre políticas públicas”, diz Fabiano Garrido, diretor-executivo do instituto Democracia em Xeque.
Outro grupo em que o PT vem perdendo adesão é o movimento estudantil, histórico reduto de formação de fileiras ligadas ao partido, de onde ascenderam lideranças da legenda, como a ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e o deputado federal Lindbergh Farias (RJ). Outrora uma das principais forças políticas do país, a militância nas escolas e universidades foi suplantada na última década pela desilusão com a política tradicional e pelo discurso do empreendedorismo individual e da rejeição ao assistencialismo social que compõe o DNA da agenda petista. “A onda de protestos contra o governo de Dilma Rousseff, em 2013, abriu as portas da militância de rua para movimentos como o MBL e grupos conservadores, enfraquecendo a capacidade histórica do PT de formar lideranças políticas nestes espaços”, diz Marco Antonio Teixeira, cientista político da FGV-SP.
O PT tem uma das bancadas na Câmara com a maior idade média, próxima dos 60 anos, cenário que o partido vai tentar reverter na próxima eleição, segundo a secretária da Juventude do partido, Júlia Köpf, que diz que esse é um dos temas tratados a todo momento dentro da sigla: “Realizamos um seminário nacional com os parlamentares jovens para apoiar os mandatos que já temos e estamos preparando as campanhas de jovens petistas para 2026. Ao mesmo tempo, sabemos que só a eleição não é suficiente. Por isso, estamos apostando nas manifestações e na mobilização para aprovar o fim da jornada 6×1”.
Dentre os fatores que desgastam a imagem do governo Lula junto a esse eleitorado, um elemento pode ser apontado como central: o puro e simples cansaço com a chamada “velha política”. Para especialistas, a nova geração se vê constantemente bombardeada por debates políticos pautados por rixas ideológicas e encontra poucas respostas das autoridades a ameaças como a crise climática, a precarização do trabalho e a crescente instabilidade geopolítica global. “O jovem não se tornou necessariamente apolítico, mas há uma crescente percepção da política como um ambiente de brigas e segregação que perdeu o potencial para construir soluções práticas”, diz Ana Cláudia Santano, diretora-executiva da Transparência Eleitoral Brasil. Fato é que o PT, como grupo que hoje ocupa o poder e lá se propõe a continuar, vem falhando em fazer com que os jovens tenham fé na agenda do partido, e este vácuo de representatividade pode ter um impacto fatal nas urnas de outubro.
Publicado em VEJA de 3 de abril de 2026, edição nº 2989
Lula também trouxe uma preocupação relativamente nova para o eleitor mais novo: a carga tributária. Tradicionalmente associada ao público mais velho, essa aflição entrou no radar dos jovens com o imposto de importação sobre compras internacionais de pequeno valor, popularizado como taxa das blusinhas, que entrou em vigor em 2024. “Essa taxa acabou consolidando a imagem de que esse governo só aumenta impostos, e impactou também os mais pobres, eleitorado clássico do Lula. Isso é particularmente impactante para os mais jovens, que têm um hábito maior de comprar on-line”, diz Sanches, da AtlasIntel. Não por acaso, a revisão da taxa é defendida por uma ala do governo como medida para recuperar popularidade.
A rejeição de Lula entre os jovens também é reflexo de um novo posicionamento ideológico. Uma pesquisa da AtlasIntel sobre as diferenças entre gerações, realizada em novembro passado, mostrou que a Z, dos nascidos entre 1997 e 2012, é mais alinhada à direita e à centro-direita do que a média da população. Isso se soma a um crescimento evangélico que é maior entre os jovens, como revelaram dados do Censo 2022 do IBGE: dos 10 aos 29 anos, o percentual dos que se declaram dessa religião é superior à média geral. Essa é uma fatia do eleitorado da qual Lula tem dificuldade de se aproximar. Uma das organizadoras do Encontro de Parlamentares Jovens do PT, cuja primeira edição aconteceu em março, a deputada estadual do Paraná Ana Júlia Ribeiro analisa a juventude como um território em disputa: “Existe uma parte que foi seduzida pelo discurso promovido pelo algoritmo das redes sociais, mas, ao mesmo tempo, tem uma parcela que é ainda mais progressista que as gerações anteriores, como nas discussões de gênero e de liberdades individuais”.
O algoritmo a que a deputada se refere é outra possível explicação para a crise de popularidade do governo, ligada ao desequilíbrio do debate na arena digital, oceano onde a oposição nada de braçada, enquanto o PT tenta recuperar terreno a todo custo. “A própria natureza do ambiente digital cria um campo mais favorável à revolta e indignação do que às discussões qualificadas sobre políticas públicas”, diz Fabiano Garrido, diretor-executivo do instituto Democracia em Xeque.
Outro grupo em que o PT vem perdendo adesão é o movimento estudantil, histórico reduto de formação de fileiras ligadas ao partido, de onde ascenderam lideranças da legenda, como a ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e o deputado federal Lindbergh Farias (RJ). Outrora uma das principais forças políticas do país, a militância nas escolas e universidades foi suplantada na última década pela desilusão com a política tradicional e pelo discurso do empreendedorismo individual e da rejeição ao assistencialismo social que compõe o DNA da agenda petista. “A onda de protestos contra o governo de Dilma Rousseff, em 2013, abriu as portas da militância de rua para movimentos como o MBL e grupos conservadores, enfraquecendo a capacidade histórica do PT de formar lideranças políticas nestes espaços”, diz Marco Antonio Teixeira, cientista político da FGV-SP.
O PT tem uma das bancadas na Câmara com a maior idade média, próxima dos 60 anos, cenário que o partido vai tentar reverter na próxima eleição, segundo a secretária da Juventude do partido, Júlia Köpf, que diz que esse é um dos temas tratados a todo momento dentro da sigla: “Realizamos um seminário nacional com os parlamentares jovens para apoiar os mandatos que já temos e estamos preparando as campanhas de jovens petistas para 2026. Ao mesmo tempo, sabemos que só a eleição não é suficiente. Por isso, estamos apostando nas manifestações e na mobilização para aprovar o fim da jornada 6×1”.
Dentre os fatores que desgastam a imagem do governo Lula junto a esse eleitorado, um elemento pode ser apontado como central: o puro e simples cansaço com a chamada “velha política”. Para especialistas, a nova geração se vê constantemente bombardeada por debates políticos pautados por rixas ideológicas e encontra poucas respostas das autoridades a ameaças como a crise climática, a precarização do trabalho e a crescente instabilidade geopolítica global. “O jovem não se tornou necessariamente apolítico, mas há uma crescente percepção da política como um ambiente de brigas e segregação que perdeu o potencial para construir soluções práticas”, diz Ana Cláudia Santano, diretora-executiva da Transparência Eleitoral Brasil. Fato é que o PT, como grupo que hoje ocupa o poder e lá se propõe a continuar, vem falhando em fazer com que os jovens tenham fé na agenda do partido, e este vácuo de representatividade pode ter um impacto fatal nas urnas de outubro.
Publicado em VEJA de 3 de abril de 2026, edição nº 2989


