Com baque nas pesquisas e racha entre aliados, campanha de Flávio enfrenta momento difícil


Com baque nas pesquisas e racha entre aliados, campanha de Flávio enfrenta momento difícil

Da VEJA - Depois de uma arrancada inicial, quando dissipou dúvidas sobre sua competitividade e chegou a superar o presidente Lula numericamente em simulações de segundo turno, a candidatura de Flávio Bolsonaro enfrenta um momento de dificuldade decorrente da combinação de dois fatores. 

Um deles foi a revelação de que o senador pediu ajuda financeira de 134 milhões de reais a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e protagonista de uma das maiores fraudes da história do país, supostamente para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro. O outro foi a decisão do governo de Donald Trump de aplicar novas sobretaxas às exportações brasileiras, anunciada após o Zero Um ser recebido na Casa Branca pelo governante americano, que ainda fez um elogio público ao convidado.

Esses casos fragilizaram o discurso de intransigência com a corrupção, um dos principais esteios da campanha do parlamentar, e deram a Lula a chance de retomar a pregação em defesa da soberania nacional, provocando um impacto nas intenções de voto para a corrida presidencial.

Segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada na última quarta-feira (10), Lula tem 10 pontos de vantagem sobre Flávio Bolsonaro no primeiro turno (39% a 29%) e abriu 6 pontos de frente no segundo turno (44% a 38%). Em abril, os dois estavam tecnicamente empatados na simulação de um confronto direto, mas o primogênito do capitão aparecia à frente, marcando 42% a 40%. 

A sondagem também mostrou que Flávio Bolsonaro perdeu terreno entre os eleitores independentes, considerados os fiéis da balança da próxima votação. Nesse segmento, o senador, que liderava com 31% em maio, caiu para 24% em junho, enquanto Lula subiu de 29% para 37%, considerando um eventual segundo turno. 

Não bastasse a queda momentânea de desempenho, Flávio Bolsonaro ainda não conseguiu solucionar um problema estrutural: o racha na direita bolsonarista, que contribui para a falta de empenho em sua campanha de três peças-chave, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, o governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas, e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).

Na terça-feira (09), ao prestigiar o lançamento da candidatura de um aliado, Michelle Bolsonaro foi lacônica ao responder sobre quando passaria a ajudar o enteado. “No momento certo, com certeza. Agora quem está precisando de apoio, de cuidados, é o meu marido”, declarou. 

Ela já havia adotado postura parecida quando instada a comentar o pedido de ajuda financeira de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro: “Tem que perguntar para ele”, reagiu na ocasião, fazendo questão de se distanciar do imbróglio. 

Considerada um dos ativos eleitorais mais importantes da oposição, com eleição dada como certa para o Senado pelo Distrito Federal, a ex-primeira-dama foi cogitada no ano passado para o posto de vice, numa chapa presidencial que seria encabeçada por Tarcísio de Freitas, e até mesmo para concorrer à Presidência. Jair Bolsonaro, no entanto, preferiu lançar seu filho mais velho, o que impulsionou a cizânia entre seus aliados.

Em conversas com pessoas de sua confiança, Michelle Bolsonaro, que é um cabo eleitoral de peso entre mulheres e evangélicos, revelou ter ficado magoada por ter sido pega de surpresa quando o enteado anunciou que disputaria o Palácio do Planalto. Ela não foi ouvida previamente sobre a escolha, da qual discorda. Também se sentiu desprestigiada depois de trabalhar tanto pelo projeto político da oposição, inclusive organizando diretórios do PL Mulher nos estados. “Não chamaram a Michelle para participar da discussão. 

Eles pensam que é só ‘vinde a mim’”, disse a VEJA uma das melhores amigas da ex-primeira-­dama. A relação com os enteados nunca foi tranquila. Os filhos de Jair Bolsonaro volta e meia disparam ataques contra ela nas redes sociais, diretamente ou por meio de terceiros. “Eles botam blogueiros de lixo para baterem nela”, afirmou outra amiga de Michelle.

No fim do ano passado, o blogueiro Allan dos Santos, ligado ao deputado cassado Eduardo Bolsonaro, criticou as agendas políticas da esposa de Bolsonaro pelo país. As viagens demonstrariam que ela não estaria nem aí para a situação do ex-presidente, que enfrenta problemas de saúde e foi condenado a 27 anos e três meses de cadeia pelo Supremo Tribunal Federal. 

“Esse tal de Allan fez acusações levianas e injustas contra mim, servindo de ventríloquo de alguém que está perto dele, totalmente interessado em atacar mulheres ou qualquer um que possa ser um obstáculo aos seus espúrios interesses”, respondeu a ex-primeira-dama. Em fevereiro, foi a vez de Eduardo Bolsonaro reclamar da falta de empenho da madrasta e de Nikolas Ferreira na campanha do irmão. 

“Nikolas e Michelle estão jogando o mesmo jogo. Você vê que um compartilha o outro e apoia o outro na rede social”, disse em entrevista ao SBT News. “Eu não vi nenhum post a favor do Flávio”, acrescentou. Um dia depois, Michelle Bolsonaro publicou uma foto de rodelas de banana preparadas para o marido. Mesmo entre os bolsonaristas, a imagem foi interpretada como uma alfinetada em Eduardo Bolsonaro, chamado jocosamente de Bananinha pelos petistas.

Autoexilado nos Estados Unidos, o Zero Três é conhecido por dar tiros no pé e comprar brigas com aliados. Um de seus alvos recorrentes é Nikolas Ferreira, fenômeno nas redes sociais e responsável pela maior debacle de popularidade da gestão Lula, ao postar um vídeo em que acusava o governo de planejar a taxação do Pix, o que não ocorreu. 

Eduardo acha que Nikolas não quer a vitória de Flávio e está tocando um projeto político próprio a fim de furar, no futuro, a fila de pretendentes à Presidência. De vez em quando, os dois trocam farpas publicamente. Campeão de votos na última eleição para a Câmara, Nikolas Ferreira tem viajado o Brasil, mantido atuação intensa nas redes sociais e tratado de temas diversos, mas quase nunca faz referência à disputa presidencial. Ele faz questão de manter uma distância regulamentar, exatamente como o governador Tarcísio de Freitas, que era o nome preferido do Centrão para concorrer à Presidência.

Candidato a um novo mandato em São Paulo, Tarcísio até agora não nacionalizou sua campanha, como gostaria o Zero Um, e tem priorizado temas de interesse do eleitorado do estado. Ele quer evitar eventuais impactos negativos do alto nível de rejeição aos Bolsonaro, pai e filho, em sua postulação. Recentemente, a Polícia Civil de São Paulo fez buscas em endereços ligados à produtora da cinebiografia de Jair Bolsonaro. 

Flávio Bolsonaro tachou a ação de perseguição para influenciar as eleições. Já Tarcísio defendeu a autonomia da polícia para investigar. Depois das sobretaxas às exportações brasileiras, aplicadas pela primeira vez no ano passado, o governador também abandonou o boné com a inscrição Make America Great Again (MAGA), usado por ele quando da posse de Donald Trump na Presidência dos Estados Unidos. A situação, por enquanto, é cristalina: na direita bolsonarista, cada campeão de voto cuida de seu projeto. Se há dever de gratidão, é com o pai, não com o filho.

Publicado em VEJA de 12 de junho de 2026, edição nº 2999

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