Logo após a divulgação do resultado do primeiro turno da eleição, Lula fez um discurso para tentar levantar o moral de sua tropa, surpreendida, como ele mesmo, com o fato de o senador Flávio Bolsonaro ter ficado na liderança com uma vantagem de 2,2 milhões de votos sobre o petista. Sob o olhar preocupado dos aliados, o presidente demonstrou serenidade, disse que o povo gosta que ele dispute o segundo turno e afirmou que venceria o páreo. “Eu sou muito bom no mata-mata”, declarou, com seu otimismo habitual. — VEJA
O placar final mostrou que ele tinha razão. No domingo (25), Lula recebeu 64.256.232 votos e superou o Zero Um, que alcançou 59.826.041 votos. Foi a primeira virada numa corrida presidencial desde a redemocratização. Foi também a primeira vez no Brasil que um candidato conquistou quatro mandatos presidenciais em eleições diretas. Para Lula, a vitória ainda teve um gostinho especial. Como era sua última campanha, ele evitou sair de cena com uma derrota. De quebra, garantiu um saldo positivo em seu cartel, que agora conta com quatro vitórias e três derrotas em candidaturas ao Palácio do Planalto.
Com 81 anos de idade completados no último dia 27, meio século de vida pública e uma carreira repleta de altos e baixos, na qual foi preso uma vez na ditadura e outra na democracia, Lula escreverá a partir de agora um capítulo decisivo de sua biografia. Ele enfrentará quatro anos desafiadores. O país saiu das urnas da mesma forma que entrou: dividido e refém de uma polarização que, se não interdita, atrapalha o debate de projetos prioritários. Os problemas continuam os mesmos, mas agravados, como o avanço do crime organizado.
O presidente terá de negociar com um Congresso ainda mais inclinado à direita e lidar com um cenário complexo na economia. No discurso da vitória, o candidato reeleito garantiu que o próximo mandato será o melhor de sua vida. O atual, como se sabe, é reprovado por metade da população. Até por isso ele avisou que mudará o jeito de governar, saindo da bolha do Palácio do Planalto e ouvindo mais a sociedade. A promessa é de menos conversa com a “esquerda festiva” e mais negociação com trabalhadores, empresários e movimentos sociais.
Um teste de fogo para o presidente será a questão das contas públicas. Entre 2023 e 2026, período que compreende o terceiro mandato de Lula, a dívida pública brasileira saltou de 72% para 83% do PIB, totalizando 11 trilhões de reais. A situação pressionou a inflação e levou o Banco Central a manter os juros nas alturas, o que contribuiu para aumentar o endividamento de empresas e famílias brasileiras. Com o objetivo de impulsionar a campanha à reeleição, o presidente anunciou bondades avaliadas entre 250 bilhões e 400 bilhões de reais, dependendo do autor da estimativa.
São pelo menos 50 bilhões de reais só em medidas que não têm fonte de custeio prevista na proposta de Orçamento para 2027. Isso obrigará a futura administração a fazer um ajuste fiscal sob pena de não ter recursos para bancar programas sociais, investimentos e até o custeio da máquina. A dúvida é sobre a intensidade do ajuste, já que Lula fez várias promessas na campanha e será cobrado a cumpri-las.