Câncer: A era das novas drogas e tratamentos inteligentes

AP Photo/National Institutes of Health, National Center for Microscopy, Tom Deerinck
Esta imagem sem data foi disponibilizada pelo National Institutes of Health and National Center for Microscopy em agosto de 2013 mostra células HeLa. Essas células "HeLa" têm sido cruciais para o desenvolvimento de vacinas e tratamentos contra o câncer
O câncer é considerado a doença mais mortal e temida dos nossos tempos. Existem mais de 100 tipos da doença. Os mais comuns são de pele, intestino, bexiga, leucemia, pulmão, próstata, mama, útero e estômago.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que os casos de câncer aumentarão 50% até 2030, ano em que o instituto estima que quase 22 milhões de pessoas no mundo sejam diagnosticadas. Esse cenário se deve ao envelhecimento da população, ao aumento do número de casos em países em desenvolvimento (a mudança brusca de estilo de vida) e a adoção de hábitos de risco, como a falta de exercícios físicos e um maior consumo de álcool, tabaco e alimentos processados.
No Brasil, em menos de uma década, 30 milhões de pessoas morreram pela doença no país, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca). Só em 2015, serão 500 mil novos casos. O Inca estima ainda que em 2016 e 2017, quase 1,2 milhão de brasileiros receberão o diagnóstico de câncer.
Recentemente uma substância criou polêmica no país por ter sido anunciada como uma cura promissora para o câncer. A fosfoetanolamina sintética é uma molécula fosforilada artificialmente, com propriedades anti-inflamatórias e pró-apoptóticas (induz a morte de células) e foi desenvolvida e patenteada por pesquisadores do Instituto de Química da USP em São Carlos (SP).Ao ser ingerida, a fosfoetanolamina é sintetizada naturalmente em algumas células do corpo. Estudos indicam que ela reativa a morte celular programada e estimula o sistema imune a eliminar o tumor maligno. A substância vinha sendo distribuída gratuitamente para pacientes interessados em um tratamento alternativo e ficou conhecida como “pílula do câncer”.
No entanto, cientistas ainda não comprovaram sua eficácia, mas existem indícios de que a droga estimule o combate às células malignas pelo sistema de defesa do organismo.
Em 2014, a USP assinou uma portaria proibindo a produção de substâncias sem registro pela Anvisa. Centenas de pacientes entraram com ações na Justiça para ter direito ao uso da pílula e forçar a universidade a produzir a substância em larga escala. A universidade contestou, alegando que a substância não é um medicamento e sua eficácia não foi comprovada cientificamente.
O Tribunal de Justiça de São Paulo proibiu o fornecimento da substância porque ela ainda não foi aprovada pela Anvisa e não existem pesquisas que comprovem a segurança ou eficácia da substância para o tratamento do câncer em seres humanos. Dias depois, o Supremo Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu em favor de um pedido feito por pacientes.
Finalmente, em novembro, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) divulgou que vai investir R$ 10 milhões em pesquisas para avaliar se a fosfoetanolamina sintética tem potencial para tratar o câncer.
Como o câncer começa
O termo “tumor” ou câncer é usado para definir doenças em que células defeituosas do corpo se multiplicam sem controle e invadem outras células, causando tumores malignos e sérios problemas de saúde.
A doença nasce a partir da divisão celular (mitose), um mecanismo natural do nosso corpo. As células do corpo humano precisam se dividir para repor células que morreram. A maioria dos tecidos (que constituirão nossos órgãos) sofre um constante processo de renovação celular graças ao equilíbrio entre proliferação e morte das células.
Toda célula está programada para se multiplicar e também morrer. O processo de crescimento celular é controlado pelo DNA (moléculas localizadas nos cromossomos da célula e que carregam o código genético). O problema é que o DNA pode sofrer uma “falha” e então a célula passa por um processo de mutação anormal e se multiplica desordenadamente, até formar uma massa de tumor.
O crescimento do tumor é motivado pela criação de vasos sanguíneos que o nutrem com oxigênio e nutrientes. Quando não evolui, o tumor é considerado benigno. Ele se torna perigoso quando cresce e as células começam a invadir órgãos vizinhos e a produzir novas células defeituosas. Esse processo de disseminação para outras partes do corpo é chamado de metástase. Estima-se que nove em cada dez mortes por câncer no mundo sejam causadas por tumores que tiveram metástase.
O câncer tem o poder de “enganar” o corpo. As células cancerosas, apesar de possuírem alterações, têm semelhanças com as saudáveis, e isso faz com que o sistema imunológico não as veja como ameaça e não induza ao “suicídio” da célula.
O que provoca o câncer?
Qualquer pessoa pode ter câncer e seu surgimento pode ser simplesmente uma questão de azar. Mas alguns fatores aumentam os ricos de desenvolvimento da doença, como anomalias genéticas hereditárias (doença passa de pai para filho), exposição a alguns vírus, exposição a agentes tóxicos (radiação, sol e agentes químicos) e hábitos não saudáveis como a má alimentação (consumo elevado de sal, alimentos embutidos), o fumo e o consumo de bebidas alcoólicas.
Se não houver tratamento, o câncer leva à morte. Por décadas, a ciência buscou armas para expulsar o tumor e governos de países investiram bilhões de dólares em pesquisas. Por ser uma doença de células que mudam a todo instante, a medicina ainda não encontrou a cura definitiva.
Mas hoje é possível vencer o câncer com tratamentos eficazes como a quimioterapia e a radioterapia, que buscam eliminar o tumor ou controlar o seu desenvolvimento em estágios iniciais. Quanto mais cedo um câncer for identificado, maiores as chances de cura. Atualmente, até 70% das pessoas diagnosticadas com câncer conseguem sobreviver à doença.
Existem três tipos de tratamento: cirurgia para remover o tumor (em parte ou em sua totalidade), a radioterapia, que expõe o tumor à radiação, que evita que as células se multipliquem, e a quimioterapia, que consiste na administração de substâncias que buscam destruir ou diminuir os tumores. Por agir nas células e ter o risco de atacar células saudáveis, ambas possuem fortes efeitos colaterais e podem prejudicar o sistema de defesa do organismo. A pessoa que teve câncer pode voltar a sofrer com a doença. Mas se após cinco anos sem diagnóstico de tumores, o paciente é considerado curado.
As novas drogas inteligentes
A ciência tem avançado bastante no tratamento do câncer e nos últimos anos, a tendência é a pesquisas de novas drogas “inteligentes”, que buscam combater os tumores sem destruir células saudáveis.
Fruto dos avanços na área de biologia molecular, as novas formas de tratamento conseguem atuar em alvos certeiros e perceber as diferenças dos tumores para bloquear as células malignas. Existe ainda o desenvolvimento de “vacinas” que podem estimular o sistema imunológico a atacar as células do câncer.
Existem três possibilidades de novas drogas que podem atuar em momentos críticos da formação de um tumor – na multiplicação celular (entender o fator de crescimento e impedir o fenômeno), na formação de vasos sanguíneos (impedir a criação de vasos sanguíneos em torno das células malignas) e na mutação genética (entender as alterações do DNA). As novas pesquisas atuam a partir dessas abordagens e a promessa é que centenas de novos tratamentos contra o câncer sejam testados nos próximos anos.
Em novembro, a FDA, agência americana que regula o setor de alimentos e remédios, aprovou pela primeira vez um tratamento que pode atacar células cancerígenas sem destruir as células saudáveis, ao mesmo tempo em que estimula o sistema imunológico a lutar contra a doença.
Batizado comercialmente de Imlygic, o tratamento usa um gene modificado do vírus da herpes para caçar células defeituosas que provocam o câncer de pele. O vírus modificado é injetado diretamente no tumor. O corpo identifica o vírus e o sistema imunológico é acionado, combatendo as células do câncer.
Apesar disso, nenhum remédio ou tratamento deve conseguir combater o câncer sozinho, já que o câncer possui uma série de alterações celulares. O caminho é criar coquetéis de drogas, combinações de diversos medicamentos que serão alteradas de forma estratégica de acordo com cada tipo de câncer e com o progresso do tratamento. A boa notícia é que pesquisadores estimam que, nas próximas décadas, o câncer será considerado uma doença crônica e não mortal, ou seja, é possível ser mantida em controle.
BIBLIOGRAFIA
Uma Célula Renegada – Como o Câncer Começa - Robert Weinberg, Rocco, 2000
Câncer e Prevenção - Artur Malzyner, MG EDITORES , 2013
Carolina Cunha

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