Custódia, Tabira e São José do Egito na lista de cidades com recordes de assassinatos em 2020

 
Municípios do interior de Pernambuco, que no passado eram considerados tranquilos, passaram a ser assombrados pela violência. Levantamento feito pela coluna Ronda JC, com base nas estatísticas da Secretaria de Defesa Social (SDS), revela que 14 cidades registraram recorde histórico de assassinatos no ano passado (veja lista abaixo). Esse resultado leva em consideração os registros dos últimos 17 anos, quando o governo do Estado passou a somar as mortes violentas.
O tráfico de drogas e os crimes de proximidades (como discussão de bar ou desentendimento entre vizinhos ou até familiares) estão entre as principais motivações dos homicídios na maioria das cidades onde houve o aumento recorde.
O município de Escada, na Mata Sul do Estado, faz parte da lista. Em 2019 foram registrados 40 assassinatos. Já no ano passado, o número saltou para 70. Aumento de 75%. Diante desse resultado catastrófico, ainda no final de 2020 a SDS fez uma mudança entre delegados. Erivaldo Guerra, reconhecido pela experiência no combate à criminalidade na capital, foi transferido para Escada. Segundo ele, a disputa pelo território entre duas organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas provocou o aumento dos homicídios na cidade. “Um dos grupos é o ‘Trem-Bala’, que vem migrando do Litoral Sul do Estado para a Zona da Mata. Assumi a delegacia com a missão de resolver o problema”, disse.A Trem-Bala é uma facção forte em Ipojuca, na Região Metropolitana do Recife. Lá, desde 2018, a polícia faz operações para prender criminosos ligados ao grupo, que é conhecido por ser bastante violento e por torturar inimigos até a morte. Em algumas situações, as vítimas da facção foram obrigadas a cavar as próprias covas onde foram enterradas após serem mortas. Em 30 de outubro do ano passado, cinco suspeitos foram mortos durante confronto com a polícia em uma usina na cidade de Escada. Na ocasião, armas e drogas foram apreendidas.
Chã de Alegria, na Mata Norte, vive situação semelhante. Cidade pacata, saltou de 5 mortes em 2019 para 12 no ano passado. Percentualmente, um aumento de 140%. O delegado seccional da região, Guilherme Mesquita, reforçou que o crime organizado também avançou no município. “São grupos bem estruturados, que disputam território e matam aqueles que são considerados os inimigos. É difícil a investigação, porque eles constroem células criminosas nas cidades e migram para outras, dificultando o trabalho da polícia. Mas fizemos trocas de delegados, colocamos alguns mais proativos para a realização de operações de repressão qualificada”, afirmou.
Em Alagoinha, no Agreste, são os crimes de proximidade que preocupam a polícia. O município, em 2019, não registrou mortes violentas. Já no ano passado, foram oito. Uma das vítimas foi Ademilton Cordeiro dos Santos, de 65 anos. Ele foi assassinado a tiros depois de discutir com um homem, na zona rural.. A investigação do crime, ocorrido em 10 de março de 2020, ainda não foi concluída. E o autor segue sem punição. A Delegacia de Alagoinha não está com delegado exclusivo. Ele acumula três municípios ao mesmo tempo, segundo policiais civis.
Durante três dias, a reportagem tentou, insistentemente, contato com delegados de municípios como Belém de Maria, Cortês, Custódia e Camutanga. São localidades que também contabilizaram recorde histórico de homicídios. Mas em nenhuma delas, os delegados estavam nas delegacias, segundo os agentes. Com déficit de profissionais na Polícia Civil, virou comum delegados assumirem mais de uma delegacia de municípios diferentes – o que expõe ainda mais a dificuldade na elucidação dos homicídios para diminuir a criminalidade.
Em Palmares, Cortês e Manari, por exemplo, nenhum dos números de telefone das delegacias foi atendido quando a reportagem ligou, em horário comercial, entre a segunda e quarta-feira. Vale lembrar que esses números fazem parte da agenda que fica disponível no site oficial da Polícia Civil de Pernambuco para a população.
A socióloga e coordenadora executiva do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), Edna Jatobá, reforça que é preciso um olhar mais atento para o interior. “A criminalidade é como uma nuvem. Não fica em um lugar só. Desde 2014, a violência letal foi se desconcentrando da Região Metropolitana. Esse aumento dos homicídios não é só culpa de facções no interior. É preciso observar o contexto de cada município, saber como está a rede de proteção contra a violência doméstica nas pequenas cidades, por exemplo. Uma cidade que teve oito mortes e, no ano anterior, não teve nenhuma, como Alagoinha, é preocupante”, avaliou.
AÇÕES
A coluna solicitou à gerência de estatísticas da SDS as motivações de todos os homicídios registrados pelas 14 cidades no ano passado. Mas, as informações não foram fornecidas. A SDS alegou que não foi possível responder porque “há inquéritos em curso elucidando algumas das motivações”. Em nota, a SDS destacou que as 14 cidades, assim como outras onde houve avanço nos homicídios, “estão sendo alvo de ações para retomarem o cenário observado em anos anteriores”.
Em todo o estado, os homicídios subiram 8,4% em 2020 em relação ao ano anterior. O programa estadual Pacto pela Vida prevê redução anual de 12%.
Segundo a pasta, o crescimento das mortes nos municípios do Sertão está relacionado principalmente “aos crimes de proximidade, praticados sob emoção ou por impulso, em ambiente familiar ou entre pessoas que convivem em comunidade, em momentos de brigas, intolerância e consumo excessivo de álcool”. Uma ação publicitária e educativa está sendo desenvolvida para promover a cultura de paz na região.
Já nas outras regiões do Estado, de acordo com a SDS, a maioria dos homicídios tem relação com atividades criminais, tráfico de drogas e acerto de contas.
Para reduzir a violência, a SDS disse que “conta com apoio das prefeituras no fortalecimento de medidas de prevenção, a exemplo de iluminação pública, ordenamento urbano e mediação de conflitos”.
Lista dos municípios com recorde de assassinatos em 2020:
Alagoinha – 8
Belém de Maria – 10
Camutanga – 6
Chã de Alegria – 12
Cortês – 12
Custódia – 18
Escada – 70
Jurema – 13
Manari – 9
Palmares – 49
Paranatama – 7
São José do Egito – 10
São Vicente Ferrer – 18
Tabira – 13