Lula e Bolsonaro continuam aprisionados no século passado

Bolsonaro se esforça para estimular o consumo de combustíveis fósseis. Lula recauchuta antigos discursos sobre o pré-sal, a Petrobras e a Eletrobras
Lula e Bolsonaro se desejam, e a cada dia de campanha se tornam mais interdependentes. Um diz que só vai a debates se o outro for, e ambos se empenham na construção de um clima de duelo eleitoral em outubro.
Ontem, por exemplo, Lula sancionou dezoito páginas de “diretrizes” do seu programa de governo. É parte do rito eleitoral do Partido dos Trabalhadores que ele ajudou a criar nas campanhas das últimas quatro décadas.
Os aliados podem propor emendas “substitutivas”, “modificativas”, “aditivas” ou “supressivas”. As sugestões devem ser enviadas até às 9 horas de quinta-feira pelo e-mail “programalula2022@gmail.com” (requer atenção porque não tem a extensão “.br”).
Bolsonaro replicou — com o improviso típico de um governo que atravessou a pandemia sem bússola e continua sem rumo na mais grave crise inflacionária da última década e meia.
Anunciou uma fatia do seu pacote eleitoral, com um tipo de auxílio emergencial aos consumidores de gasolina, gás e diesel (o preço do petróleo no mercado mundial aumentou 20% nas últimas cinco semanas).
O plano é complexo, deixou claro o ministro Paulo Guedes. Pode parecer subsídio, ter cheiro de subsídio mas não é subsídio, no sentido clássico dos manuais de economia. “É redução de imposto”, esclareceu o ministro da Economia, acrescentando: “E tem prazo definido, até 31 de dezembro.”
Significa que, se vier a sair do papel, vai valer apenas no período entre a temporada eleitoral e o réveillon.
Quanto vai custar? Ninguém sabe. Quem vai pagar? Também não está nítido, exceto na parte em que os Estados liquidariam de imediato sua arrecadação tributária sobre combustíveis.
Depois, receberiam algum dinheiro repassado pelo governo federal. É promessa, porque depende do Congresso aprovar mudança na Constituição — em dois turnos de votação, com 308 votos favoráveis na Câmara e 49 no Senado.
Em política, tudo é possível na “urgência urgentíssima” de uma campanha com um presidente e 540 deputados e senadores diretamente interessados na reeleição.
Bolsonaro está preocupado com a rejeição recorde no presente. Lula lidera esboçando um desenho para o futuro lastreado no passado (“Eu tenho um legado, não preciso fazer promessas”, tem repetido).
Ambos continuam aprisionados no século XX. Bolsonaro procura meios para estimular o consumo nacional de combustíveis fósseis numa era de transição para fontes renováveis de energia.
Lula recauchuta antigos discursos. “O pré-sal será novamente um passaporte para o futuro”, registra nas diretrizes do seu programa de governo. “Nos opomos fortemente à privatização”, acrescenta, citando a Petrobras, a Pré-Sal Petróleo (PPSA), a Eletrobras, os Correios e bancos públicos “como BB, CEF, BNDES, BNB, BASA e a FINEP”.
É alegoria eleitoral, ele sabe. Privatizar Petrobras e a PPSA é operação complicada, como já descobriu Bolsonaro. A complexidade política e econômica consumiria um mandato inteiro apenas para preparar o processo de venda, sob contestação constante no Legislativo e no Judiciário.
No caso da Eletrobras ocorre o inverso. O problema, agora, é desfazer a privatização em andamento. Ela foi autorizada pelo Congresso. Voltar atrás exigiria esforço político inédito, com consequências imprevisíveis no aumento da insegurança jurídica e a um custo econômico superior — e inestimável — ao da venda já encaminhada.
O tema pode ter demanda fácil no PT e adjacências. Difícil vai ser obter a resposta desejada num ambiente democrático.
José Casado - VEJA

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