
Quando deixou a Presidência da República em 2010, Lula estava no auge da popularidade. No cenário externo, era festejado como “o cara”, definição cunhada pelo então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. No ambiente doméstico, embalado por mais de 80% de aprovação, ele tinha tanta força que escolheu uma neófita em eleições, Dilma Rousseff, para ser sua sucessora e ainda prometeu desmontar o que chamou de “farsa” do mensalão, referindo-se ao esquema de suborno parlamentar que funcionou em seu primeiro mandato e rendeu uma temporada na cadeia a petistas estrelados. Matéria da VEJA.
Hoje, o quadro é diferente. Candidato a reeleição, Lula enfrenta um processo de desgaste de imagem, o mau humor do eleitorado com o custo de vida e uma oposição bem mais competitiva e aguerrida. Além disso, mostra-se menos capaz de liderar negociações e construir alianças eleitorais amplas. Seu favoritismo na próxima campanha, tão alardeado por aliados na virada do ano, corre riscos, e o político invencível de 2010 agora encontra-se sob pressão.
Essa situação não é surpreendente. Desde o início do terceiro mandato, Lula comanda um governo sem rumo, sem marca nova, consumido por disputas internas e incapaz de propor soluções para problemas prioritários, como a segurança e as contas públicas. Ele fracassou no sonho de ser um líder global e perdeu a conexão com o eleitorado interno ao tentar aplicar à realidade atual uma receita que pode ter dado certo duas décadas atrás, mas que está desatualizada.
Um exemplo do anacronismo: o outrora líder sindical demorou a entender que uma massa de trabalhadores não faz mais questão de ter carteira assinada e prefere ganhar a vida por conta própria. O contingente de pequenos empreendedores, segundo especialistas, tornou-se um importante filão eleitoral, que está distante da esquerda e próximo da direita. Não é um caso isolado.
Pesquisas mostram a desaprovação ao governo acima da aprovação e, como reflexo disso, Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) estão empatados nas simulações de segundo turno da próxima corrida presidencial. Em algumas delas, o oposicionista já aparece numericamente à frente do presidente.
Pressionados, Lula e aliados culpam a comunicação do governo pelo fato de a população não dar ao presidente o crédito que lhe seria devido. É o bode expiatório de sempre, devidamente criticado na última reunião ministerial. Como o alegado problema não foi resolvido nem com a troca de comando na área, com a entrada do marqueteiro Sidônio Palmeira no lugar do deputado Paulo Pimenta (PT-RS), o presidente resolveu pisar no acelerador para tornar seu produto mais bem avaliado pela população.
A prioridade é aliviar o bolso do eleitor. Recém-empossado no cargo, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, está trabalhando num programa destinado a viabilizar uma nova rodada de renegociação de dívidas. Mesmo com o desemprego no menor nível da série histórica, a inflação dentro da meta e o aumento da renda média do trabalhador, 80% dos lares registravam endividamento em março e quase 82 milhões de brasileiros estavam inadimplentes, um recorde, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. No setor produtivo, o problema também assusta, com um número crescente de empresas enfrentando problemas de caixa.
Na inauguração de uma fábrica no interior de Goiás, Lula, que sempre estimulou o consumo, alertou para a necessidade de o eleitor se controlar na hora de comprar porque, de pouquinho em pouquinho, a fatura pode ficar salgada demais. “E aí a gente começa a ficar zangado: ‘pô, trabalhei o mês inteiro, recebi meu salário e não sobrou nada. Aí quem que você xinga? O governo”, declarou.
Entre discutir a responsabilidade pelas dívidas e tentar encontrar uma solução, mesmo que paliativa, o presidente escolheu a segunda opção, e o programa de renegociação deve ser anunciado nos próximos dias. Está em estudo, entre outros, a possibilidade de descontos de até 90% sobre débitos de cartão de crédito, cheque especial e empréstimos pessoais. O governo usaria recursos públicos como garantia parcial das operações, assumindo parte do risco de inadimplência. “O programa vai nos ajudar a diminuir essa sensação de que a vida não está dando certo, porque o que o cidadão ganha não está dando para pagar as contas”, disse Gilberto Carvalho, chefe de gabinete nos dois primeiros mandatos de Lula e reforço na coordenação da campanha à reeleição.
O empenho do governo para combater o encarecimento do custo de vida ocorre em outras frentes. Com os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, o preço do petróleo disparou, o que pode provocar mais inflação no Brasil e, em razão disso, diminuição no ritmo de corte da taxa básica de juros. Desde o início do conflito, a equipe econômica de Lula anunciou subvenções para óleo diesel e gás de cozinha, além de desoneração de PIS/Cofins para diesel e querosene de aviação.
As medidas podem custar até 31 bilhões de reais e serão compensadas com o aumento do imposto sobre cigarros e com a cobrança de tributo sobre a exportação de petróleo. Todo o esforço é para impedir o aumento de preço dos combustíveis, que pode levar a uma nova paralisação dos caminhoneiros, como a que ocorreu em 2018, e das passagens aéreas. Projeções de mercado indicam que a inflação, antes estimada em 3,5% para o ano, dá mostra de ir para perto de 4,5%. “Embora o impacto inicial tenha sido mais concentrado nos combustíveis, ele agora se dissemina gradualmente, atingindo bens e insumos”, diz Lívio Ribeiro, da consultoria econômica BRCG.
Adaptando o discurso do pai, Flávio Bolsonaro ainda fez um apelo para que a administração Trump exerça pressão diplomática a fim de garantir “eleições livres e justas” no Brasil. Ele insinuou que há risco de ocorrer censura e fraude e de a direita sair derrotada na campanha. Era tudo que os coordenadores da campanha do senador, empenhados em moderar sua imagem, não gostariam de ouvir. Foi também um presente para Lula.
No ano passado, o presidente usou o tarifaço imposto por Trump às exportações brasileiras para sair das cordas, acusar a família Bolsonaro de conspirar contra o país e recuperar popularidade. Deu certo. O enredo deve se repetir até a eleição. Há poucos dias, diante da retomada das queixas do governo americano sobre o uso do Pix no Brasil, Lula afirmou que o país não abrirá mão desse meio de pagamento. Como a questão do Pix também foi usada para justificar o tarifaço, Flávio Bolsonaro se sentiu obrigado a fazer coro ao petista.
Honrando uma tradição nacional, a principal arma de Lula para subir nas pesquisas será o uso da caneta presidencial e da máquina pública. No ano passado, ele abusou desses instrumentos e plantou bondades, as quais espera colher na forma de votos em outubro. Entre elas, destacam-se a isenção do imposto de renda para quem ganha até 5.000 reais por mês, a distribuição de gás de cozinha para 15 milhões de famílias e a redução da conta de luz, em alguns casos a zero, para 60 milhões de famílias.
Coordenados pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que continuou no cargo e não disputará a eleição, os programas Gás do Povo e Luz do Povo receberam atenção especial do governo nas redes sociais e foram divulgados por influenciadores, numa tentativa de produzir uma agenda positiva para o governo numa seara, a digital, em que a oposição e o bolsonarismo ainda reinam quase absolutos.
No Brasil, a tentação da gastança anda de mãos dadas com as dificuldades eleitorais dos candidatos à reeleição. Jair Bolsonaro sabe bem disso. Em junho de 2022, ele aparecia 19 pontos percentuais atrás de Lula na pesquisa Datafolha. No mês seguinte, alegando a necessidade de atenuar os efeitos dos ataques da Rússia à Ucrânia, o capitão conseguiu aprovar uma proposta de emenda constitucional que permitiu ao governo furar o teto de gastos e destinar mais de 40 bilhões de reais para custear uma série de medidas, como a ampliação do Bolsa Família, de 400 para 600 reais, e a distribuição de ajuda financeira a caminhoneiros. Deu-se, então, uma arrancada, e o então presidente encostou no petista, que acabou vencendo o páreo, no segundo turno, por menos de 2 pontos percentuais de diferença. O precedente está aberto para Lula, que já demonstrou inúmeras vezes não precisar de pretexto para gastar mais.
Diante das dificuldades da gestão atual, volta e meia surgem especulações de que o presidente pode desistir da reeleição por medo de ser derrotado, o que seria um terrível epílogo para sua biografia política. O enigma atormenta principalmente os petistas e frequenta o imaginário da oposição. Numa entrevista recente, Lula até disse que ainda não decidiu se será candidato, mas ressaltou que provavelmente concorrerá. Na imensa maioria das outras manifestações, ele afirmou que será “tetra” e exercerá um quarto mandato. A seis meses da eleição, qualquer prognóstico é mero chute. A única certeza que vale para o momento, e só para este momento, é que o caminho para a conquista do título se apresenta muito mais difícil do que o presidente esperava.
Publicado em VEJA de 10 de abril de 2026, edição nº 2990.
Hoje, o quadro é diferente. Candidato a reeleição, Lula enfrenta um processo de desgaste de imagem, o mau humor do eleitorado com o custo de vida e uma oposição bem mais competitiva e aguerrida. Além disso, mostra-se menos capaz de liderar negociações e construir alianças eleitorais amplas. Seu favoritismo na próxima campanha, tão alardeado por aliados na virada do ano, corre riscos, e o político invencível de 2010 agora encontra-se sob pressão.
Essa situação não é surpreendente. Desde o início do terceiro mandato, Lula comanda um governo sem rumo, sem marca nova, consumido por disputas internas e incapaz de propor soluções para problemas prioritários, como a segurança e as contas públicas. Ele fracassou no sonho de ser um líder global e perdeu a conexão com o eleitorado interno ao tentar aplicar à realidade atual uma receita que pode ter dado certo duas décadas atrás, mas que está desatualizada.
Um exemplo do anacronismo: o outrora líder sindical demorou a entender que uma massa de trabalhadores não faz mais questão de ter carteira assinada e prefere ganhar a vida por conta própria. O contingente de pequenos empreendedores, segundo especialistas, tornou-se um importante filão eleitoral, que está distante da esquerda e próximo da direita. Não é um caso isolado.
Pesquisas mostram a desaprovação ao governo acima da aprovação e, como reflexo disso, Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) estão empatados nas simulações de segundo turno da próxima corrida presidencial. Em algumas delas, o oposicionista já aparece numericamente à frente do presidente.
Pressionados, Lula e aliados culpam a comunicação do governo pelo fato de a população não dar ao presidente o crédito que lhe seria devido. É o bode expiatório de sempre, devidamente criticado na última reunião ministerial. Como o alegado problema não foi resolvido nem com a troca de comando na área, com a entrada do marqueteiro Sidônio Palmeira no lugar do deputado Paulo Pimenta (PT-RS), o presidente resolveu pisar no acelerador para tornar seu produto mais bem avaliado pela população.
A prioridade é aliviar o bolso do eleitor. Recém-empossado no cargo, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, está trabalhando num programa destinado a viabilizar uma nova rodada de renegociação de dívidas. Mesmo com o desemprego no menor nível da série histórica, a inflação dentro da meta e o aumento da renda média do trabalhador, 80% dos lares registravam endividamento em março e quase 82 milhões de brasileiros estavam inadimplentes, um recorde, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. No setor produtivo, o problema também assusta, com um número crescente de empresas enfrentando problemas de caixa.
Na inauguração de uma fábrica no interior de Goiás, Lula, que sempre estimulou o consumo, alertou para a necessidade de o eleitor se controlar na hora de comprar porque, de pouquinho em pouquinho, a fatura pode ficar salgada demais. “E aí a gente começa a ficar zangado: ‘pô, trabalhei o mês inteiro, recebi meu salário e não sobrou nada. Aí quem que você xinga? O governo”, declarou.
Entre discutir a responsabilidade pelas dívidas e tentar encontrar uma solução, mesmo que paliativa, o presidente escolheu a segunda opção, e o programa de renegociação deve ser anunciado nos próximos dias. Está em estudo, entre outros, a possibilidade de descontos de até 90% sobre débitos de cartão de crédito, cheque especial e empréstimos pessoais. O governo usaria recursos públicos como garantia parcial das operações, assumindo parte do risco de inadimplência. “O programa vai nos ajudar a diminuir essa sensação de que a vida não está dando certo, porque o que o cidadão ganha não está dando para pagar as contas”, disse Gilberto Carvalho, chefe de gabinete nos dois primeiros mandatos de Lula e reforço na coordenação da campanha à reeleição.
O empenho do governo para combater o encarecimento do custo de vida ocorre em outras frentes. Com os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, o preço do petróleo disparou, o que pode provocar mais inflação no Brasil e, em razão disso, diminuição no ritmo de corte da taxa básica de juros. Desde o início do conflito, a equipe econômica de Lula anunciou subvenções para óleo diesel e gás de cozinha, além de desoneração de PIS/Cofins para diesel e querosene de aviação.
As medidas podem custar até 31 bilhões de reais e serão compensadas com o aumento do imposto sobre cigarros e com a cobrança de tributo sobre a exportação de petróleo. Todo o esforço é para impedir o aumento de preço dos combustíveis, que pode levar a uma nova paralisação dos caminhoneiros, como a que ocorreu em 2018, e das passagens aéreas. Projeções de mercado indicam que a inflação, antes estimada em 3,5% para o ano, dá mostra de ir para perto de 4,5%. “Embora o impacto inicial tenha sido mais concentrado nos combustíveis, ele agora se dissemina gradualmente, atingindo bens e insumos”, diz Lívio Ribeiro, da consultoria econômica BRCG.
Adaptando o discurso do pai, Flávio Bolsonaro ainda fez um apelo para que a administração Trump exerça pressão diplomática a fim de garantir “eleições livres e justas” no Brasil. Ele insinuou que há risco de ocorrer censura e fraude e de a direita sair derrotada na campanha. Era tudo que os coordenadores da campanha do senador, empenhados em moderar sua imagem, não gostariam de ouvir. Foi também um presente para Lula.
No ano passado, o presidente usou o tarifaço imposto por Trump às exportações brasileiras para sair das cordas, acusar a família Bolsonaro de conspirar contra o país e recuperar popularidade. Deu certo. O enredo deve se repetir até a eleição. Há poucos dias, diante da retomada das queixas do governo americano sobre o uso do Pix no Brasil, Lula afirmou que o país não abrirá mão desse meio de pagamento. Como a questão do Pix também foi usada para justificar o tarifaço, Flávio Bolsonaro se sentiu obrigado a fazer coro ao petista.
Honrando uma tradição nacional, a principal arma de Lula para subir nas pesquisas será o uso da caneta presidencial e da máquina pública. No ano passado, ele abusou desses instrumentos e plantou bondades, as quais espera colher na forma de votos em outubro. Entre elas, destacam-se a isenção do imposto de renda para quem ganha até 5.000 reais por mês, a distribuição de gás de cozinha para 15 milhões de famílias e a redução da conta de luz, em alguns casos a zero, para 60 milhões de famílias.
Coordenados pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que continuou no cargo e não disputará a eleição, os programas Gás do Povo e Luz do Povo receberam atenção especial do governo nas redes sociais e foram divulgados por influenciadores, numa tentativa de produzir uma agenda positiva para o governo numa seara, a digital, em que a oposição e o bolsonarismo ainda reinam quase absolutos.
No Brasil, a tentação da gastança anda de mãos dadas com as dificuldades eleitorais dos candidatos à reeleição. Jair Bolsonaro sabe bem disso. Em junho de 2022, ele aparecia 19 pontos percentuais atrás de Lula na pesquisa Datafolha. No mês seguinte, alegando a necessidade de atenuar os efeitos dos ataques da Rússia à Ucrânia, o capitão conseguiu aprovar uma proposta de emenda constitucional que permitiu ao governo furar o teto de gastos e destinar mais de 40 bilhões de reais para custear uma série de medidas, como a ampliação do Bolsa Família, de 400 para 600 reais, e a distribuição de ajuda financeira a caminhoneiros. Deu-se, então, uma arrancada, e o então presidente encostou no petista, que acabou vencendo o páreo, no segundo turno, por menos de 2 pontos percentuais de diferença. O precedente está aberto para Lula, que já demonstrou inúmeras vezes não precisar de pretexto para gastar mais.
Diante das dificuldades da gestão atual, volta e meia surgem especulações de que o presidente pode desistir da reeleição por medo de ser derrotado, o que seria um terrível epílogo para sua biografia política. O enigma atormenta principalmente os petistas e frequenta o imaginário da oposição. Numa entrevista recente, Lula até disse que ainda não decidiu se será candidato, mas ressaltou que provavelmente concorrerá. Na imensa maioria das outras manifestações, ele afirmou que será “tetra” e exercerá um quarto mandato. A seis meses da eleição, qualquer prognóstico é mero chute. A única certeza que vale para o momento, e só para este momento, é que o caminho para a conquista do título se apresenta muito mais difícil do que o presidente esperava.
Publicado em VEJA de 10 de abril de 2026, edição nº 2990.


