Covid: as máscaras de tecido servem contra as novas cepas? Veja o que dizem especialistas

Item indispensável desde o início da pandemia da Covid-19, as máscaras são equipamentos de proteção fundamentais para o controle da disseminação do coronavírus Sars-CoV-2, que já infectou quase 107 milhões de pessoas e matou mais de 2,3 milhões no mundo.
Nas ruas, a maioria das máscaras usadas pela população, ainda que nem sempre corretamente cobrindo o nariz e a boca, é do tipo caseira, geralmente com duas camadas de tecido de trama fechada, e feita em tecido de algodão.
A nova dúvida lançada sobre a eficiência dessas máscaras de tecido vem após alguns países europeus, como França, Alemanha e Áustria, obrigarem o uso de máscaras do tipo profissionais, como as cirúrgicas e as que no Brasil são chamadas de PFF2 - categoria na qual está inclusa a máscara tipo N95. Essas máscaras possuem uma espécie de filtro que inibe a passagem de micropartículas e de pequenos micro-organismos.
Segundo os governos desses países, o uso das máscaras como as profissionais, feitas de tecido não tecido, seria justificado pelas novas variantes do coronavírus, consideradas mais contagiosas. Em todo o mundo, cepas mutantes como a brasileira, a sul-africana e a inglesa despertam nova preocupação- enquanto as campanhas de vacinação ainda engatinham, principalmente em países mais pobres.
O debate então passa a ser em torno do modelo a ser usado e em quais ocasiões. Especialistas defendem que máscaras mais eficazes, como as cirúrgicas ou PFF2, devem ser usadas em situações de maior risco, como em ambientes hospitalares, especialmente na linha de frente do combate à Covid-19.Para a médica epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz Pernambuco (Fiocruz/PE) Ana Britto, há duas vertentes que não recomendam o uso de máscaras de não tecido no atual contexto da pandemia no Brasil: o fator socioeconômico e a sustentabilidade.
“Estamos no hemisfério sul, a parte do mundo onde temos o maior número de pobres. O vírus não mudou de tamanho a ponto de passar pelos materiais que as máscaras de tecido foram confeccionadas. A máscara é uma das medidas não medicamentosas importantes para controlar a disseminação do vírus, porque serve como um mecanismo de barreira”, explica Ana Britto, que lembra do alto custo das máscaras profissionais.
De acordo com a epidemiologista, o uso universal de máscaras descartáveis é insustentável. “As máscaras cirúrgicas e as N95 são exclusivas de ambiente hospitalar. Pode ser usado no meio da rua, só que há um esgotamento até mesmo no descarte, porque a máscara só pode ser usada por quatro horas. Imagine um descarte de 7 bilhões de pessoas no mundo inteiro”, pondera a médica.
A epidemiologista acrescenta que é preciso haver esforços em direção ao uso qualificado da máscara como método de barreira fundamental. "Enquanto não houver vacina para todos e conseguirmos reduzir a transmissão precisaremos usar máscaras. Daqui a dois anos a gente pode até pensar em parar de usar máscara caso não venham variantes que atrapalhem as vacinas”, completa Ana Brito.
Medidas como usar duas máscaras, uma por cima da outra, por exemplo, também não têm eficácia comprovada contra a disseminação do vírus. “A trama [do tecido] é a mesma, está aberta do mesmo jeito. O recomendado é usar uma máscara que se ajuste ao rosto, que feche as laterais. A própria máscara cirúrgica [de não tecido] precisa ser fechada e ajustada. Você tem que proteger bocas, olhos e nariz”, explica.
“Não é de forma nenhuma indicado, o vírus fica resistente à vacina, é outra história, o tamanho do vírus não mudou e não vai mudar”, finaliza Ana Brito.
Já para o infectologista Gabriel Serrano, apesar de os atuais protocolos de autoridades de Saúde como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OMS) sejam para usar as máscaras de tecido, é possível que, em breve, surjam novas recomendações para as máscaras apontadas como mais eficientes.
"Quanto mais tempo levamos para vacinar a população, mais fácil de o vírus sofrer mutações. É provável que a mutação de Manaus já esteja em todo o Brasil e há a necessidade de haver uma maior segurança", explica Gabriel.
Para o infectologista, usando uma máscara considerada melhor, é possível diminuir a carga viral recebida.
“Na máscara cirúrgica descartável, não há tecido, há um menor espaço. Você diminui a carga viral. Como nem todo mundo está usando máscara, aumentaria a segurança se houvesse um maior número de pessoas usando máscaras cirúrgicas e você não dependeria tanto da população porque você consegue se proteger mais”, detalha.
As máscaras de tecido têm fibras tecidas e cruzadas, o que deixa pequenos espaços entre elas, naquilo que é chamado de gramatura ou grossura do material. “As máscaras que não são de tecido, feito as cirúrgicas, que são de TNT (tecido não tecido), acabam impedindo bem aquilo que você vai inalar e melhor ainda as PFF2, que têm como exemplo a N95”, completa o infectologista.
Gabriel cita o uso das máscaras profissionais como um problema em relação ao custo, além de reiterar o uso priorizado de máscaras cirúrgicas para profissionais de Saúde. “É mais cara, não iria adiantar muito para a população, mas melhor do que não usar nada é usar a de tecido. Há um receio se todo mundo comprar e acabar [as máscaras cirúrgicas]”, completa.
O que diz a Organização Mundial de Saúde
Questionada em coletiva de imprensa recente sobre a eficiência das máscaras de tecido contra as novas cepas do coronavírus, a Organização Mundial de Saúde (OMS) informou que não prevê mudar suas recomendações porque a forma de transmissão do vírus permanece a mesma.
"Todas as pessoas com menos de 60 anos que não tiverem problemas de saúde particulares podem usar as máscaras de tecido, não cirúrgicas", afirmou a encarregada da gestão da pandemia na OMS, Maria Van Kerkhove.
"Nas regiões onde o vírus circula, é preciso usar a máscara quando as pessoas estão aglomeradas e é impossível ficarem pelo menos a um metro de distância umas das outras, e também em quartos com pouca ou má ventilação", acrescentou.
"Os países são livres para tomar as medidas que considerem necessárias", afirmou Van Kerkhove sobre as novas medidas de restrição contra máscaras de tecido adotadas na Europa.
Por fim, apesar de as novas variantes serem mais contagiosas, a OMS indica que não há indício, a princípio, que sugira alguma mudança na forma de transmissão do vírus. “Nesta fase não temos a intenção de mudar as recomendações vigentes”, concluiu a encarregada.
Os diferentes tipos de máscaras
Máscara N95 ou PFF2 - para profissionais da saúde em situações específicas
É feita com poliéster e outras fibras sintéticas, incluindo camadas de fibras emaranhadas que atuam como filtro para dificultar a passagem de partículas. A N95 é indicada para uso de profissionais em procedimentos com potencial de geração de aerossóis, partículas finas e leves que ficam suspensas no ar.
Tem formato curvo para oferecer mais aderência ao rosto de quem utiliza. Apesar de ser apontada como uma das mais eficazes, fazer o ajuste correto é um dos fatores essenciais para garantir a proteção.
Máscara cirúrgica - para profissionais da saúde, pessoas com suspeita ou confirmação de Covid-19
A mais comum é a branca, mas existem outras cores disponíveis. Deve ser confeccionada de material tecido não tecido (TNT), possuir no mínimo uma camada interna, uma externa e obrigatoriamente um elemento filtrante. As máscaras cirúrgicas são usadas para evitar a contaminação da boca e nariz de profissional de saúde quando estiver a uma distância inferior a 1 metro do paciente suspeito ou confirmado de infecção pela Covid-19.
Ela também deve ser utilizada em pessoas que estejam com sintomas de infecção respiratória para que se impeça a transmissão. São máscaras descartáveis e não podem ser limpas ou desinfetadas em qualquer hipótese após o uso, devendo ser descartada sempre que úmida ou suja. Neste momento de pandemia também é aconselhável seu uso por pessoas sem sintomas quando sair de casa.
Máscara de tecido caseira - para pessoas em geral fora do ambiente de instituições de saúde
Deve utilizar um material denso o suficiente para capturar partículas virais, mas também deve oferecer facilidade na respiração, como tecidos de algodão, tricoline e TNT.
Além disso, é aconselhável que as produções caseiras tenham duas camadas do material usado e que tenham tamanho suficiente para cobrir o nariz e se estender até abaixo do queixo. Esse modelo é reutilizável, basta lavá-la após o uso. (Via: Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC)

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