O jogo ensaiado de Lula e Bolsonaro para escapar dos debates

Se confirmadas as ausências, eles deixariam os eleitores do Brasil do século XXI em desvantagem em relação ao eleitorado da Grécia Antiga
“O que é isso minha gente?” — reagiu Carlos Lupi, presidente nacional do PDT. “Partido popular de esquerda querendo limitar debate? Onde está o campo popular nisso? Onde está a democracia, onde está o respeito pela opinião alheia? Onde está a vontade de esclarecer a opinião pública sobre cada candidato? Está ficando muito parecido, o grupo do Bolsonaro com o grupo do Lula. É tudo muito igual”
O tom de perplexidade pontuado por ironia do ex-ministro dos governos Lula e Dilma Rousseff era com a proposta de sete partidos (PT, PCdoB, PSB, PSOL, PV, Rede e Solidariedade) para realização de somente três debates entre candidatos à presidência da República.
“Em 42 anos de vida pública eu nunca imaginei que ia ver um abaixo-assinado de partidos de esquerda, sete partidos, pedindo para não ter muito debate”, criticou.
Há meses, Lula e Bolsonaro planejam escapar do embate com os demais adversários. Querem restringir a luta no primeiro turno, imaginando transformá-la num duelo eleitoral na segunda rodada.
Debates com outros candidatos são desnecessários, comentou Lula numa reunião do Partido dos Trabalhadores em janeiro. Argumentou com a liderança e a vantagem estáveis (de 20 pontos percentuais, na média) que mantém nas pesquisas de intenção de voto desde o segundo semestre do ano passado.
“O modelo não funciona”, insistiu, sugerindo uma agenda de entrevistas, sempre que possível com entrevistadores escolhidos pelo PT.
Bolsonaro, também, só pensa em confronto com Lula. “Se ele for, eu vou”, ironizou.
Quando junho começou, ambos colecionavam uma dezena de convites para debates, sem resposta.
Sob pressão, PT e aliados encontraram a saída num truque frequente em negociações legislativas — diante de uma dificuldade, crie outra ou várias, para chegar à solução desejada.
Enviaram carta às associações e empresas de comunicação alegando que a multiplicidade de debates previstos seria “incompatível com a agenda política e a realização de atos públicos de campanha”. Acrescentaram duas sugestões: “se organizem em pool”, mas no limite de “até três debates nacionais”.
Lula e Bolsonaro desejam impor um recorte necessariamente seletivo do processo eleitoral, no qual os eleitores ficariam privados não somente do confronto público e amplo sobre o conteúdo das suas propostas, mas, também, da análise crítica dos adversários.
Em 2018, Bolsonaro foi a apenas dois debates. O atentado em Juiz de Fora (MG), no início de setembro, o levou a atravessar os dois turnos eleitorais na cama de um hospital e, depois, em casa, limitado a entrevistas e manifestações em redes sociais.
Lula, 48 meses atrás, estava preso em Curitiba. Fez o PT anunciá-lo candidato à presidência e, na sequência, apelar duas vezes em tribunais por uma autorização para participar de debates e de atos de campanha, ao vivo por videoconferência ou por gravações.
Sua ausência nos debates e nos atos de campanha, alegou o PT nos autos, contribuiria para desconstruir “a própria democracia brasileira e o direito da população de escolher livremente o próximo presidente”.
Acrescentou, na época: “Prejudicar a isonomia entre os candidatos, deixando o povo alijado de ouvir, ao menos, as propostas, é suprimir a própria participação popular do próximo pleito eleitoral.”
Condenado, ficou impedido de se candidatar e de comparecer à arena eleitoral para submeter suas propostas à crítica dos adversários. Livre e líder nas pesquisas, rejeita a dezena de convites para debater com os demais candidatos.
Se confirmadas as ausências, Lula e Bolsonaro deixariam os eleitores do Brasil do século XXI em desvantagem em relação ao eleitorado da Grécia Antiga, onde a invenção da luta política com palavras moldou a essência da democracia.

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