Lula chega à reta final sem impulso de popularidade visto em presidentes candidatos à reeleição



Lula chega à reta final sem impulso de popularidade visto em presidentes candidatos à reeleição

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega à reta final da campanha sem repetir o impulso de popularidade que marcou os antecessores nos anos em que disputaram a reeleição. A melhora na avaliação ocorreu nas quatro eleições em que presidentes buscaram um novo mandato a partir de 1998, quando Fernando Henrique Cardoso inaugurou a possibilidade de um chefe do Executivo concorrer novamente ao cargo. — Estadão

Nos últimos meses, o governo anunciou uma sequência de medidas voltadas à renda e ao custo de vida, mas elas ainda não se refletiram em uma melhora mais clara da avaliação de Lula. Aliados avaliam que as iniciativas ainda terão tempo de produzir efeito sobre o eleitorado. Cientistas políticos ouvidos pelo Estadão, porém, atribuem a dificuldade a uma combinação de fatores políticos, econômicos e de comunicação.

Pesquisa Ipsos-Ipec divulgada em 17 de setembro aponta que 33% dos brasileiros classificam o governo Lula como ótimo ou bom, enquanto 43% o consideram ruim ou péssimo. A avaliação positiva corresponde à soma das menções de ótimo e bom, já a negativa reúne as avaliações ruim e péssimo. Na comparação com junho, a avaliação positiva oscilou de 32% para 33%, variação dentro da margem de erro de dois pontos porcentuais, enquanto a negativa avançou cinco pontos, de 38% para 43%.

Com Lula, esse movimento não se repetiu até agora. Levantamento com base na série histórica do Ibope e do Ipec (sucessor do primeiro), mostra que os presidentes que disputaram a reeleição anteriormente chegaram à reta final do primeiro turno com avaliação positiva superior à registrada meses antes, no início do período eleitoral.

Fernando Henrique Cardoso passou de 28% de ótimo ou bom em maio para 40% em setembro de 1998; Lula, de 38% no fim de maio para 42% às vésperas da votação de 2006; Dilma Rousseff, de 31% em julho para 40% no início de outubro de 2014; e Jair Bolsonaro, de 30% em agosto para 33% na última pesquisa antes do primeiro turno de 2022.

Bolsonaro foi o único deles que não conseguiu se reeleger. Ainda assim, terminou o primeiro turno a 5 pontos de Lula: recebeu 43,2% dos votos válidos, contra 48,4% do petista, diferença de cerca de 6,2 milhões de votos.

Naquele ano, o governo também adotou, às vésperas da eleição, uma série de medidas de ampliação de benefícios sociais reunidas na chamada PEC das Bondades. A principal foi a elevação do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600. O pacote também ampliou o vale-gás e criou auxílios para caminhoneiros e taxistas.

Lula também chega à reta final de 2026 depois de uma sequência de iniciativas de “pacote de bondades”. Nos últimos meses, o governo ampliou o Gás do Povo, lançou uma nova edição do Desenrola e revogou a chamada “taxa das blusinhas”. Já na reta final da campanha, anunciou o reajuste do Bolsa Família e a oferta de canetas emagrecedoras pelo SUS e a proibição do funcionamento de empresas de apostas on-line, as chamadas bets.

Para o cientista político e professor do Insper Leandro Cosentino, Lula não tem conseguido transformar em popularidade uma vantagem de que presidentes candidatos à reeleição costumam dispor: o controle da máquina pública e a possibilidade de adotar medidas com impacto direto sobre a vida dos eleitores.

Cosentino atribui essa dificuldade a uma combinação de fatores, como a mudança na percepção sobre políticas sociais, cada vez mais vistas como direitos adquiridos; a polarização, que também influencia a forma como diferentes grupos enxergam a economia; e uma espécie de “fadiga de material” diante da perspectiva de um quarto mandato presidencial de Lula. “Não é um presidente indo para o primeiro ou segundo mandato, mas tentando o quarto”, afirma. Para ele, pesa ainda o timing das medidas, com parte dos anúncios concentrada muito perto do primeiro turno.

O cientista político Antonio Lavareda acrescenta que a dificuldade passa pela comunicação. Na avaliação dele, medidas isoladas tendem a produzir pouco efeito se não forem apresentadas ao eleitor dentro de uma narrativa capaz de conectá-las e dar sentido ao conjunto das ações. A campanha de Lula, diz, ainda não conseguiu fazer essa integração de forma assertiva, enquanto temas como a crise envolvendo o Supremo passaram a disputar a atenção do eleitor e reduziram o espaço para as iniciativas do governo. “As medidas sozinhas, por si só, não entregam resultados”, afirma.

Lavareda aponta ainda um descompasso entre os indicadores econômicos e a percepção cotidiana dos eleitores. Na avaliação dele, parte da população não sente uma melhora equivalente no poder de compra, o que ajuda a explicar por que o cenário econômico e as iniciativas do governo não se traduziram até agora em avanço mais claro da popularidade.

O ambiente da campanha também ajuda a explicar a dificuldade de uma reação mais forte nesta reta final. Para Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva, houve um movimento antecipado de recuperação da aprovação do governo há cerca de quatro meses, mas o cenário atual, marcado pela apatia do eleitorado, torna mudanças mais expressivas menos prováveis às vésperas da votação. “Essa é a eleição mais sem pauta que eu já vi na vida. Não tem debate, não tem discussão. Criou-se um ambiente muito apático, em que mudanças radicais ficaram mais difíceis.”

No governo e no PT, a avaliação é de que o quadro ainda pode mudar. O deputado federal e vice-líder do governo na Câmara, Rogério Correia (PT-MG), afirma que as medidas anunciadas mais recentemente ainda podem produzir efeito até o primeiro turno e, sobretudo, em um eventual segundo turno. “A decisão do voto costuma levar em conta um conjunto mais amplo de fatores, e a população começou a perceber essa mudança para melhor”, avalia.

O secretário nacional de Comunicação do PT, Eden Valadares, também vê espaço para Lula crescer na reta final. Para ele, a eleição permanece apertada, mas uma parcela expressiva do eleitorado ainda não definiu candidato. A aposta do partido é intensificar, nos últimos dias de campanha, a comparação entre os governos, as propostas e as trajetórias de Lula e Flávio Bolsonaro. “É nesse espaço que acreditamos que o presidente Lula vai crescer”, afirma.

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