Na pandemia, TikTok se consolida como plataforma que impulsiona tendências musicais

Febre recente no mundo inteiro, a plataforma chinesa TikTok está consolidada como uma das mais populares redes sociais da atualidade. Com vídeos entre 15 segundos e 3 minutos, o serviço faz sucesso principalmente entre os mais jovens e a rápida difusão do aplicativo tem gerado consequências fora da rede social, e até mesmo a indústria musical é impactada pelo que está em alta no aplicativo. Atualmente, os grandes sucessos nas paradas e rankings do Spotify e YouTube tem ligação direta com o que é tendência no TikTok.
Seis das 10 músicas mais ouvidas do Brasil, no Spotify, se popularizaram primeiro na plataforma de vídeos, segundo a própria lista do streaming. Em um recorte global, cinco das 10 primeiras no Top 50 Spotify Mundo foram, de alguma forma, influenciadas pelo TikTok. O Top 10 do Youtube Brasil também é dominado pelas canções que se popularizaram na plataforma chinesa.
O fascínio pelos vídeos curtos e engraçados é tão impactante que atualmente um cover de 2017 do cantor Måneskin, de Beggin’ — música originalmente lançada em 1967 por Frank Valli — ocupa o primeiro lugar do Top 50 Spotify Mundo e o 8º lugar no do Spotify Brasil.
No Brasil, o principal nome popularizado pela plataforma é João Gomes. Cantor de voz grave que canta a variação do forró conhecida como piseiro. Atualmente, ele ocupa o primeiro e o segundo lugares do ranking do YouTube e as primeira e a quarta posições do Top 50 do Spotify Brasil. “Eu não imaginava todo esse sucesso, é bem mais do que eu pedi a Deus. É muito bom ver a galera ouvindo o som, dedicando a alguém, isso não tem preço”, afirma o músico, conhecido por sucessos como Meu pedaço de pecado e Aquelas coisas.
João Gomes tentou ser jogador de futebol, não conseguiu, mas não houve tempo para sofrimento. Com 18 anos, ele acumula milhões de reproduções nos serviços de streaming e vê jogadores de futebol dançando as músicas que canta. “É gratificante ver que agora não só jogadores, mas músicos, artistas estão ouvindo a minha música. Só tenho a agradecer”, conta.
Outro fenômeno da atualidade é Mari Fernandez, cantora que mistura piseiro e sertanejo e conquistou o Brasil com a canção Não, não vou. “A gente não planejou que a música fosse fazer esse sucesso todo no TikTok, na verdade acho que não tem nem jeito de planejar”, lembra Mari. Contudo, ela pensou na plataforma para a divulgação do som. “A gente soltou o primeiro vídeo no TikTok, mas foi orgânico, com a ajuda de Deus e do meu público a música aconteceu”, adiciona a cantora.
O single que ganhou dança própria no TikTok foi direto para o topo da lista do Spotify. Milhares de pessoas fizeram a coreografia nas próprias casas, inclusive famosos, outros músicos, artistas e influencers. “Nem nos meus melhores sonhos eu imaginaria que todas essas pessoas estariam dançando um sucesso meu, interpretado por mim”, comenta Mari. “Os números são uma bobagem perto de ver as pessoas que eu já admirava fazendo a dancinha”, completa.
Outra dancinha que alavancou uma carreira foi a de Mds, música que revelou o cantor Kawe para todo o Brasil. Ele, que acumula quase 200 milhões de reproduções na faixa somando YouTube e Spotify, chegou ao auge sem conhecer exatamente o que seria o TikTok. “Nós soltamos a música como quem não quer nada. E aí quando já tava com 14 milhões de plays, já tinha um pessoal reconhecendo, com sete meses, alguém fez uma dancinha no TikTok, que bombou, e foi isso”, recorda o artista. “Minha música Mds bateu 3 milhões de vídeos na plataforma, então se cada um tivesse só 10 visualizações já era muita coisa. Mas tem vídeo que bate um milhão, dois milhões de visualizações, com certeza a plataforma me ajudou muito”, avalia Kawe, que aprendeu até a dancinha. “ É a única que sei fazer, porque também não sou muito bom de dança, mas sei fazer”, brinca.
O porquê do sucesso
Para especialistas, o principal motivo do estouro da plataforma chinesa é a adaptação à velocidade com que as pessoas consomem informação atualmente. “Buscamos cada vez mais consumir bons conteúdos de ótima qualidade e de forma rápida. O TikTok permite isso”, explica Douglas Gomides, especialista em marketing digital e novas mídias. “A ferramenta é essencial para o nosso estilo de vida. Vídeos breves e diretos”, projeta o estudioso.
Segundo Paula Tebett, também pesquisadora de novas mídias e marketing digital, o TikTok não será passageiro e já dita uma nova tendência para as redes sociais. “Não é moda, e não é à toa que vimos grandes mídias sociais adotarem vídeos curtos na vertical. Uma rede acaba copiando e ‘se inspirando’ nas outras, como faz o Instagram, na ferramenta Reels, e o YouTube, com o Shorts”, explica. “É sempre muito importante estar ligado na evolução da forma de se comunicar na internet. A cada dia, novas redes aparecem e abrem um leque de oportunidades porque se comunicam com grupos específicos e agregam mais gente ao uso das redes”, analisa a especialista.
Para os dois especialistas, a pandemia só acelerou o processo natural de criar um novo gigante das redes sociais. “O TikTok ganhou mais adeptos durante a pandemia, quando famosos foram convidados pela plataforma para criar conteúdo por lá. Ele se tornou o app mais baixado durante este período. Também foi o app mais baixado no mês de junho deste ano”, pontua Tebett. “Conteúdo rápido, amador e engraçado. Como a TV perdeu força, essas plataformas ganharam. Todas as classes, todas as idades utilizam essa ferramenta durante a pandemia”, acrescenta Gomides.
Fonte: Correio Braziliense