
Em menos de 48 horas, o Congresso Nacional protagonizou duas decisões que, colocadas lado a lado, escancaram uma contradição difícil de ignorar e que ajuda a explicar a desconfiança crescente da população em relação à classe política. Por Sérgio Coelho.
Na noite da última segunda-feira (2), a Câmara dos Deputados aprovou a Medida Provisória que cria o programa Gás do Povo, garantindo a gratuidade do botijão de gás de 13 quilos para famílias de baixa renda. A iniciativa foi apresentada como uma política social essencial, voltada a aliviar o custo de vida e assegurar dignidade a milhões de brasileiros em situação de vulnerabilidade.
A medida foi amplamente divulgada como um gesto de sensibilidade social. Mas, como diz o ditado popular, quando a esmola é grande, o cego desconfia.
A desconfiança ganhou força já no dia seguinte. Na terça-feira (3), em uma sessão conduzida em ritmo acelerado, o Congresso aprovou um conjunto de projetos que reestrutura a remuneração de servidores da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. As propostas foram incluídas na pauta após acordo entre líderes partidários e votadas em menos de três horas.
Os textos criam gratificações, adicionais e mecanismos que permitem remunerações acima do teto constitucional, hoje fixado em R$ 46.366,19, salário de ministro do Supremo Tribunal Federal. Na prática, alguns servidores poderão atingir ganhos mensais próximos de R$ 77 mil, graças a novos “penduricalhos”.
Entre eles está a Gratificação de Desempenho e Alinhamento Estratégico (GDAE), de autoria da Mesa Diretora da Câmara. A regra concede um dia de licença a cada três trabalhados, com a possibilidade de o servidor optar por converter o descanso em dinheiro. O modelo abre caminho para aumentos que podem chegar a 100% do salário-base, especialmente nos cargos mais altos da estrutura legislativa.
Durante a votação, a relatora, senadora Leila Barros (PDT-DF), afirmou que o impacto financeiro será absorvido pelo orçamento próprio de cada Poder. Já o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), argumentou que medidas semelhantes já foram adotadas no Senado, no Tribunal de Contas da União (TCU) e no Judiciário. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), defendeu os reajustes como forma de valorização dos servidores.
O problema é a conta, e para quem ela chega.
De acordo com cálculos do Centro de Liderança Pública (CLP), os quatro projetos aprovados terão impacto estimado de R$ 4,3 bilhões por ano, valor suficiente para custear um ano inteiro do Bolsa Família para cerca de 500 mil famílias. O mesmo Congresso que oferece um botijão de gás a quem passa necessidade aprova, quase sem debate, mecanismos que ampliam desigualdades dentro do próprio Estado.
Para Daniel Duque, head de Inteligência Técnica do CLP, o mérito da recomposição salarial se perde quando vem acompanhado de distorções. “O problema está nos penduricalhos, especialmente a licença-compensatória convertida em dinheiro, que funciona como um aumento concentrado no topo da administração”, alerta.
No caso da Câmara, o PL 179/2026 permite transformar até 10 dias de licença por mês em indenização, o que pode representar um acréscimo de cerca de 33% no salário mensal. No Senado, o PL 6070/2025 adota lógica semelhante, com gratificações que variam de 40% a 100% do maior vencimento básico do cargo. Mesmo com estimativas conservadoras, o custo dessas licenças pode chegar a R$ 80 milhões por ano apenas no Legislativo.
O contraste entre as duas decisões é simbólico. De um lado, políticas sociais pontuais, de forte apelo popular. Do outro, reajustes estruturais que beneficiam o topo da máquina pública, aprovados de forma célere e quase silenciosa.
É nesse contexto que o velho ditado popular volta a fazer sentido. Quando o gesto parece generoso demais, vale olhar com atenção para o que está sendo feito nos bastidores, e para quem, de fato, sai ganhando no final.
Na noite da última segunda-feira (2), a Câmara dos Deputados aprovou a Medida Provisória que cria o programa Gás do Povo, garantindo a gratuidade do botijão de gás de 13 quilos para famílias de baixa renda. A iniciativa foi apresentada como uma política social essencial, voltada a aliviar o custo de vida e assegurar dignidade a milhões de brasileiros em situação de vulnerabilidade.
A medida foi amplamente divulgada como um gesto de sensibilidade social. Mas, como diz o ditado popular, quando a esmola é grande, o cego desconfia.
A desconfiança ganhou força já no dia seguinte. Na terça-feira (3), em uma sessão conduzida em ritmo acelerado, o Congresso aprovou um conjunto de projetos que reestrutura a remuneração de servidores da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. As propostas foram incluídas na pauta após acordo entre líderes partidários e votadas em menos de três horas.
Os textos criam gratificações, adicionais e mecanismos que permitem remunerações acima do teto constitucional, hoje fixado em R$ 46.366,19, salário de ministro do Supremo Tribunal Federal. Na prática, alguns servidores poderão atingir ganhos mensais próximos de R$ 77 mil, graças a novos “penduricalhos”.
Entre eles está a Gratificação de Desempenho e Alinhamento Estratégico (GDAE), de autoria da Mesa Diretora da Câmara. A regra concede um dia de licença a cada três trabalhados, com a possibilidade de o servidor optar por converter o descanso em dinheiro. O modelo abre caminho para aumentos que podem chegar a 100% do salário-base, especialmente nos cargos mais altos da estrutura legislativa.
Durante a votação, a relatora, senadora Leila Barros (PDT-DF), afirmou que o impacto financeiro será absorvido pelo orçamento próprio de cada Poder. Já o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), argumentou que medidas semelhantes já foram adotadas no Senado, no Tribunal de Contas da União (TCU) e no Judiciário. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), defendeu os reajustes como forma de valorização dos servidores.
O problema é a conta, e para quem ela chega.
De acordo com cálculos do Centro de Liderança Pública (CLP), os quatro projetos aprovados terão impacto estimado de R$ 4,3 bilhões por ano, valor suficiente para custear um ano inteiro do Bolsa Família para cerca de 500 mil famílias. O mesmo Congresso que oferece um botijão de gás a quem passa necessidade aprova, quase sem debate, mecanismos que ampliam desigualdades dentro do próprio Estado.
Para Daniel Duque, head de Inteligência Técnica do CLP, o mérito da recomposição salarial se perde quando vem acompanhado de distorções. “O problema está nos penduricalhos, especialmente a licença-compensatória convertida em dinheiro, que funciona como um aumento concentrado no topo da administração”, alerta.
No caso da Câmara, o PL 179/2026 permite transformar até 10 dias de licença por mês em indenização, o que pode representar um acréscimo de cerca de 33% no salário mensal. No Senado, o PL 6070/2025 adota lógica semelhante, com gratificações que variam de 40% a 100% do maior vencimento básico do cargo. Mesmo com estimativas conservadoras, o custo dessas licenças pode chegar a R$ 80 milhões por ano apenas no Legislativo.
O contraste entre as duas decisões é simbólico. De um lado, políticas sociais pontuais, de forte apelo popular. Do outro, reajustes estruturais que beneficiam o topo da máquina pública, aprovados de forma célere e quase silenciosa.
É nesse contexto que o velho ditado popular volta a fazer sentido. Quando o gesto parece generoso demais, vale olhar com atenção para o que está sendo feito nos bastidores, e para quem, de fato, sai ganhando no final.


